Entendendo Os Ciclos de Inovação: Onde Estamos e Para Onde Vamos


Nota do Autor: Esse post surgiu de discussões que venho mantendo com o Yuri Gitahy (@aceleradora), Diego Gomes (@dttg) e Edmar Ferreira (@escalabilidade), além de diversos outros co-autores do RWW BR. A idéia de trabalhar em uma visão estratégica do ciclo de inovações surgiu no ano passado, mas somente agora consegui colocar no papel. Para quem leu o livro “Innovator’ s Dilemma”, a idéia pode parecer familiar, mas o foco é bem diferente – nas gerações de inovações e não em inovações individuais.

O atual ciclo de inovação na Internet começou modestamente por volta de 2003 – ainda nas cinzas do estouro da bolha dotcom – e se acelerou nos últimos cinco anos, até começar dar sinais de mudança de ritmo depois da crise de 2008/2009. Nesse período empresas como Facebook e Twitter surgiram e alcançaram a ponta de um mercado cobiçado, através de serviços e modelos de negócio inovadores.

O mercado está passando agora por uma fase de transição. Novas startups continuam surgindo, mas os recursos estão mais escassos e seletivos (pelo menos no primeiro mundo). O mercado brasileiro é promissor, porém ainda não tem um modelo de investimento em inovação maduro. Mas o que mais chama a atenção para os analistas que atuam nessa indústria é um certo cansaço com as idéias apresentadas. Na visão de muitos, a inovação acabou: as grandes idéias já teriam sido exploradas e com isso sobram apenas oportunidades menores.

A análise do ciclo de inovação mostra que isso tudo faz sentido. As inovações tem caráter cíclico. A geração atual está acabando, e uma nova geração virá por aí – de cara nova e quem sabe, em um novo território.

Gerações de Inovação

Inovações podem surgir qualquer momento, mas raramente ocorrem de forma isolada. Quando as condições tecnológicas e de mercado propiciam uma base adequada, surge uma geração inteira de inovações, que se estende por vários anos. Esta geração passa por um ciclo de vida, caracterizado por variações no tipo, na frequência e no impacto das inovações apresentadas.

Fase Experimental

O ciclo de inovação começa com uma fase de experimentação. É comum que exista um estranho tipo de sincronicidade: idéias parecidas começam a pipocar de lugares diferentes, aparentemente sem ligação. É uma fase amadora, caracterizada por ‘startups de garagem’, que alavancam idéias novas com base na tecnologia disponível no mercado. Ainda não há um modelo de negócio claro, e os investimentos tendem a ser pequenos e localizados.

Fase Disruptiva

O ciclo se acelera quando algumas inovações da fase experimental amadurecem e demonstram seu caráter disruptivo. Esta fase é que costumamos associar com inovação “de verdade”: idéias que aparentemente vem do nada e que mudam a forma de pensar e agir, criando novos mercados e sacudindo o status quo. O mercado cresce rapidamente. As estruturas de financiamento se consolidam. Muitas idéias da fase experimental são abandonadas, mas quem sobrevive fica muito bem posicionado para crescer ao longo do ciclo.

Fase Combinatória

Depois das primeiras grandes idéias, começa a corrida do ouro. Investidores buscam freneticamente por novas idéias em um terreno cada vez mais ocupado. À medida que o processo  avança (e as idéias naturais se esgotam), começam a surgir empresas especializadas em recombinar exaustivamente outras idéias, na busca de uma combinação que dê certo. É um processo de tentativa e erro, onde os erros se tornam cada vez mais frequentes.

Essa fase é marcada pela exuberância quase irracional dos investidores, que substitui a desconfiança inicial e chega a causar situações bizarras. Com o tempo, o processo se torna cansativo. O retorno é decrescente, mas mesmo assim durante muito tempo a pressão pela inovação continua, até um ponto de colapso.

Fase Incremental

Quando o mercado finalmente se cansa de explorar combinações, começa o processo de consolidação. Nessa fase, as empresas que conseguiram se estruturar nas fases anteriores já estão maduras o suficiente  para assumir um papel de liderança. Elas oferecem ao investidor a garantia de um processo de gestão de inovação mais previsível, com menos risco, porque tem uma marca conhecida e já demostraram capacidade de desenvolver e implantar uma inovação no mercado. Em suma, elas tem o know how necessário para fazer as coisas acontecerem.

Onde Estamos Hoje

Vivemos hoje uma fase de amadurecimento onde a transição da fase combinatória para a fase incremental é visível. Empresas como Google e Facebook estão adquirindo outras empresas e consolidando seu espaço. A inovação é cada vez mais dirigida para preencher espaços, dentro de uma estratégia corporativa bem definida. Os investidores ficam mais seletivos e o volume de capital de risco começa a minguar. Negócios táticos e bem dirigidos ainda tem grande chance de sucesso, desde que se evite a armadilha de entrar em uma corrida combinatória cada vez menos eficiente.

Nesse momento, é engraçado pensar que um ciclo de inovação surge justamente do sucesso completo do ciclo anterior.

À medida que o ciclo evolui, o custo da inovação aumenta. As apostas ficam mais altas. Na fase experimental, bastam duas pessoas e uma boa idéia na cabeça. Na fase incremental, se você não conhece ninguém nas grandes empresas, dificilmente venderá sua idéia. Um exemplo conhecido é a Apple, que tentou vender o conceito do microcomputador para a HP – e foi esnobada. O mesmo ocorreu com o Google na primeira geração da Internet.

Além disso, a base tecnológica criada pela geração anterior propicia as condições para que novas idéias sejam testadas, marcando o início de uma nova fase experimental. No caso da Apple, o baixo custo dos chips permitiu experimentar com processadores caseiros; no caso do Google, o baixo custo dos servidores permitiu experimentar com paralelismo em larga escala.

A Inovação Morreu, Viva a Nova Inovação

A nova geração de inovadores já está por aí. Cabe a ela ficar de olho em setores de mercado para os quais os atuais líderes se mostrarão incapazes de ocupar de forma eficiente. E nesse momento, tamanho não é documento. Assim como a Microsoft jamais conseguiu se firmar como líder na Internet, negócios com potencial disruptivo (mesmo que ainda não provado) como realidade aumentada ou computação pervasiva podem se mostrar pedras no sapato dos gigantes de hoje. Nada garante que tudo que os tornou grandes até agora valerá para ser o líder no novo mercado. A questão é identificar segmentos onde o custo de inovação seja baixo, permitindo experimentar de forma livre. Por exemplo, a geração atual irá deixar uma base de dispositivos móveis poderosos e baratos, e uma infra-estrutura de cloud computing capaz de dar escalabilidade a idéias realmente inovadoras. Alavancar esta tecnologia é o caminho mais seguro para se posicionar no novo ciclo que se anuncia.