Marinexplore

WebHolic Entrevista: Roberto de Almeida, engenheiro da Marinexplore

Roberto de Almeida tem 34 anos, é doutor em oceanografia pela Universidade de São Paulo, e após 6 anos de trabalho no INPE, o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais, se mudou para a Califórnia e assumiu o cargo de Engenheiro de Dados Oceanográficos na Marinexplore, startup que mantém uma plataforma de dados sobre os oceanos e atmosfera.

Roberto De Almeida Marinexplore WebHolic Entrevista: Roberto de Almeida, engenheiro da Marinexplore

Nascido em São José dos Campos, sempre esteve próximo da vida acadêmica e da computação: “Minha família sempre girou em torno de aeronáutica, tecnologia, então o INPE sempre foi pra mim um centro que admirava muito. O pai de um dos meus amigos de infância trabalhava no INPE, e lembro que na minha primeira semana de trabalho ele me mandou um email dizendo ‘bem vindo ao time’, e aquilo pra mim foi muito forte, estar trabalhando no mesmo lugar que ele, um cara super inteligente que eu admirava desde moleque.”

Para trabalhar com os dados de suas pesquisas, desenvolveu em 2003 o Pydap, uma biblioteca Python para o DAP (Data Access Protocol), um protocolo para acesso a dados, usado principalmente na área de meteorologia, oceanografia e clima. Hoje o software é um projeto grande, tem integração com Google Earth, acessa bancos de dados relacionais, usa o Openlayers e envolve uma série de tecnologias desde o backend até o frontend: “Sei que tem gente na NOAA usando, já recebi patches da NASA, e lembro da agência espacial europeia também usando um tempo atrás. E pensar que começou como um projeto de uma tarde feito por um cara que mal sabia programar! Aprendi que a gente nunca sabe quando alguma coisa que é útil pra gente vai ser útil pros outros, então na dúvida é sempre melhor compartilhar. Um dos meus projetos mais usados chama Pupynere, que é um nome tosco que inventei na hora porque achei que nunca ia passar pela vergonha de ouvir alguém falando ‘hey, I love pupynere!’, mas ele tem uns 100 mil downloads.”

Nesta entrevista, Roberto conta um pouco sobre a aventura de sair da vida acadêmica para entrar no dia a dia de uma startup nos EUA.

WH: É a primeira vez que você trabalha para uma empresa. Como está a adaptação? Quais as diferenças entre a academia e pesquisa?

Roberto de Almeida: Pra mim tem sido um enorme aprendizado. Primeiro porque estou aprendendo a realmente trabalhar em conjunto com outras pessoas, que é uma coisa que nunca fiz. Sempre trabalhei praticamente sozinho, liderando meus projetos. Na área acadêmica as pessoas não compartilham muito código, e acabam trabalhando individualmente em partes de um projeto ou artigo, sem muita interação. Não estou acostumado a trabalhar com outras pessoas no mesmo código, fazendo reuniões diárias, um dependendo do outro, e principalmente ter que resolver conflitos no Github! Mas é bom, estou aprendendo muito e, melhor ainda, vejo as pessoas aprendendo comigo, comentando sobre meu código.

O ritmo é completamente diferente. A gente faz um novo release a cada 2 semanas. Como grande parte do nosso time está na Estônia, nosso dia começa às 7:00 da manhã, por causa do fuso horário, e normalmente vamos até 19:00. Chego em casa e continuo trabalhando, não porque existe uma cobrança, mas porque gosto e acredito no que estou fazendo. Tudo aqui é muito rápido, as decisões são tomadas de um dia pro outro, e se mando um email e não tenho resposta no dia seguinte já fico incomodado, porque a gente tem muita pressa.

WH: Como surgiu o convite para se mudar para os EUA e trabalhar na Marinexplore?

Roberto: Enquanto pesquisador, sempre gastei boa parte do meu tempo desenvolvendo software livre. Uma vez eu li um texto do Scott Adams, criador do Dilbert, em que ele dizia que existiam duas fórmulas para o sucesso. Uma delas era ser o top 1% da sua área. A segunda, era ser o top 10% de duas áreas diferentes. Foi aí que tentei me encaixar: sabia que não era um dos melhores oceanógrafos do mundo, e muito menos o melhor programador, mas eu podia encontrar o meu nicho sendo um dos melhores oceanógrafos-programadores do mundo.

Comecei a desenvolver para mim, porque a maneira como oceanógrafos trabalham com dados é muito ineficiente. Sempre gostei de software livre. Como cientista, invejava o modelo aberto e meritocrático da internet e do software livre. Uma coisa triste é que existe um grande preconceito contra programadores na ciência, como se fosse um “trabalho menor”. Na minha cabeça não fazia sentido largar a academia para virar desenvolvedor, era como dar um passo para trás, por isso encarei meus projetos open-source como uma atividade secundário. Mas com o passar do tempo percebi que era isso que realmente gostava de fazer. Notei também que poderia contribuir mais para a ciência como desenvolvedor do que pesquisador, e comecei a pensar seriamente em sair do INPE para abrir uma startup.

Quando tomei essa decisão e conversei com meu chefe sobre minha saída, recebi um email do pessoal da Marinexplore, querendo marcar uma reunião via Skype comigo. Eles estavam trabalhando nas mesmas ideias que eu tinha, usavam algumas bibliotecas que eu tinha desenvolvido, e me chamaram para ser parte dos fundadores da empresa. Achei a oportunidade imperdível, ainda mais considerando que estava começando uma nova carreira exatamente nesta área, e achei que ainda tinha muito a aprender antes de abrir minha própria empresa. Na Marinexplore poderia me concentrar no que faço melhor, sem ter que me preocupar em abrir uma empresa, procurar clientes, vender o produto, e outras coisas em que sou realmente muito ruim.

WH: Qual a sensação de estar trabalhando em uma startup? Qual a parte mais estimulante do seu trabalho?

Roberto: É muito legal! Sempre acompanhei o Hacker News, lia os posts do Paul Graham, então tinha muita vontade de vivenciar isso também. E aqui no Vale do Silício e São Francisco rola uma energia muito legal, todo mundo empolgado querendo criar algo novo, e com muita coisa acontecendo. Você vai num encontro do Meetup.com e encontra uma galera muito interessante, gente do Google, ou o desenvolvedor da biblioteca que você usa. Estou morando numa “hackerhome”, que é uma casa cheia de beliches anunciada no Airbnb, então em casa sempre tem alguém novo trabalhando numa startup, ou fazendo entrevista pro Facebook. Uma experiência bem legal.

Ao mesmo tempo, uma startup tem aquele ritmo doido, é como construir um trem e ir aperfeiçoando ele em movimento. Você constroi um produto bom o suficiente para levantar recursos, e aí vai ao mesmo tempo progredindo e refazendo o que ficou pra trás. A gente tem dinheiro para se manter por X meses, mas em vez de economizar para durar mais a estratégia é justamente gastar para contratar mais gente, para ter um produto melhor, para poder conseguir mais investimento. É difícil achar o balanço certo entre economizar e investir, e fico feliz que não sou eu quem tem que se preocupar com isso.

O que mais gosto do meu trabalho é que posso finalmente conciliar as duas coisas que gosto, oceanografia e programação, sem sacrificar uma em nome da outra. A gente tem uma vontade genuína de ajudar a comunidade oceanográfica a perder menos tempo com processamento de dados para poder dedicar mais tempo à ciência. Não estamos fazendo isso para vender a empresa na primeira oportunidade, mas porque realmente queremos fazer diferença. Se não fosse por isso eu não teria vindo trabalhar aqui.

WH: A Marinexplore trabalha com quais tipos de dados? Como é a coleta e aproveitamento de dados oceanográficos?

Roberto: Atualmente existem cerca de 100 mil sensores coletando informação sobre o mar, desde temperatura e salinidade (que são parâmetros fundamentais) até clorofila, CO2 e outros não menos importantes relacionados à atividade biológica. Esses sensores estão em satélites, barcos, boias, e “robôs” espalhados pelo mar. Tem vários projetos legais acontecendo: o próprio James Gosling, criador do Java, participa de uma empresa chamada Liquid Robotics, que constrói plataformas controladas remotamente que conseguem produzir eletricidade a partir das ondas.

Grande parte desses dados são públicos, porque são coletados por instituições de pesquisa como a NOAA e o INPE. Mas se você quiser pegar, por exemplo, dados de temperatura hoje, você precisa saber quais projetos coletam esse dado, ir em uma dezena de sites diferentes, e os dados vão estar em diferentes unidades, diferentes formatos, diferentes padrões. Quando estava no INPE, grande parte do meu tempo era gasto com isso, coletando e processando dados, em vez de estar fazendo ciência.

O que a Marinexplore faz é agregar todos esses dados num único lugar, no mesmo formato, o que permite que alguém vá no site, escolha uma região, um período e veja todas as plataformas que estão medindo temperatura do mar, ou CO2, ou vento, ondas, o que for. E a pessoa pode baixar tudo de uma vez, num único arquivo. De graça. Em vez de coletarmos os dados no mar nós simplesmente coletamos o que está disponível na internet, de centenas de bases de dados desconectadas, de difícil acesso ou desconhecidas. A gente estima que existam alguns petabytes de dados oceanográficos públicos, e a ideia é ter tudo no nosso sistema o mais rápido possível.

Nota do editor: desde 8 de fevereiro, em parceria com a Universidade de Cornell, a Marinexplore está oferecendo US$ 10 mil para quem desenvolver um algoritmo para detecção de baleias no Atlântico Norte, o que vai ajudar a evitar colisões de navios com esses mamíferos.

WH: Afinal, o aquecimento global é real?

Roberto: Essa é uma pergunta complicada, difícil de responder. Como cientista, sei que as pessoas perguntam isso procurando uma resposta de credibilidade, porque aparece gente na TV falando que é mentira, que a Terra está esfriando, que é tudo uma conspiração, e é difícil saber no que acreditar. Por outro lado, como cientista, também não me sinto confortável em dar uma resposta “exata” – uma das coisas que eu aprendi, lendo os livros do Karl Popper, é que não podemos provar nenhuma teoria, apenas desprovar. Mas nessa altura do campeonato a gente pode recorrer à navalha de Occam e dizer que sim, o aquecimento global é real.

Pra responder a essa pergunta tudo que a gente precisa fazer é olhar um gráfico da temperatura média da Terra. Fazendo isso vamos ver que existe uma tendência de aquecimento desde o começo do século, mais forte nas últimas décadas. Existem alguns pontos estranhos: por exemplo, a Terra pareceu ficar mais quente em 1997-1998 para depois esfriar, mas isso foi porque tivemos um El Niño extremamente forte nesssa época, que tem como efeito justamente aumentar a temperatura média da Terra. Se removermos o efeito de El Niño e La Niña, além do resfriamento causado por erupções vulcânicas vamos ver um claro padrão de aquecimento. Esse padrão, aliás, foi previsto pelo IPCC (Intergovernamental Panel for Climate Change) desde os primeiros relatórios de avaliação, e o resultado é que essas previsões subestimaram o aquecimento que estamos observando agora.

Assim, temos pouca dúvida de que a Terra está esquentando. Agora, não é porque a Terra está esquentando na média que não vamos ter invernos mais frios, por exemplo. Regiões diferentes da Terra respondem de maneiras diferentes, e um dos fenômenos também antecipados com o aquecimento global é o aumento da ocorrência de eventos extremos, inclusive tempestades, nevascas e enchentes.

WH: Obrigado pela entrevista Roberto, e boa sorte!