A Longa Discussão Sobre a Privacidade no Facebook

O Facebook mudou o mundo ajudando 350 milhões de pessoas a publicarem seus pensamentos, comentários, fotos, vídeos e links compartilhados com muito mais facilidade do que nunca.

A rede social cresceu com uma grande promessa de privacidade como principal objetivo: suas informações serão configuradas para somente ser visíveis pelos seus amigos. Em Dezembro isso mudou de uma maneira fundamental. Oferecemos a seguir um resumo das alterações que foram feitas e os principais destaques do debate que está presente em todo o mundo sobre privacidade, informação pública e Facebook.

O que mudou em Dezembro: os usuários do Facebook não podem mais restringir o acesso a suas fotos e da lista de atualizações. A lista de contatos também sofreu modificações, mas depois de uma reação negativa dos usuários, a opção de não torná-la pública reapareceu.

Algumas informações como, atualizações (“What’s on your mind?”), fotos compartilhadas, vídeos e links costumavam ser visíveis somente para amigos, e isso nas configurações padrão. Se você nunca modificou suas configurações de privacidade, então em Dezembro essas informações se tornaram públicas (visíveis para toda web, inclusive buscadores).

Depois disso houve muita confusão. Muitas pessoas não gostaram da nova política, e aqui estão algumas opiniões desse debate.

Os Argumentos do Facebook a Favor Desta Mudança

Em Julho perguntamos a alguns executivos do Facebook sobre as mudanças iniciais de privacidade, se o Facebook iria forçar as pessoas a compartilhar publicamente mais informação no site. As respostas foram inconsistentes e não muito convincentes.

A Gerente de Produtos Leah Pearlman nos disse que tornar esses dados públicos iria facilitar para os usuários a identificar quais pessoas eram seus amigos quando os resultados de pesquisas revelarem várias pessoas com o mesmo nome. A Diretora de Comunicações Brandee Barker afirmou que mais informações públicas iriam ajudar os usuários a conectar-se com novas pessoas que compartilham interesses em comum.

O Chefe do Escritório de Privacidade Chris Kelly nos disse em Julho que as mudanças do Facebook não iriam diminuir a privacidade do usuário, mas iriam aumentar seu controle sobre sua privacidade.

Depois das mudanças de Dezembro, conversamos com o Diretor de Comunicação Corporativa e Políticas Públicas Barry Schnitt. Ele nos disse que essa mudança de privacidade era importante, “assim como foi em 2006 quando o Facebook se tornou mais do que uma rede de amigos da faculdade.” “O Facebook está mudando,” ele disse, “assim como todo o mundo e nós vamos inovar para atender as solicitações do usuário.”

Schnitt disse que o mundo estava mudando, se distanciando do foco de privacidade e citou como prova o aumento dos blogs, MySpace e Twitter, os comentários postados em sites de jornais e a popularidade dos Reality Shows. Schnitt também reconheceu que os pageviews e publicidade eram parte da motivação.

Então, neste mês o fundador do Facebook Mark Zuckerberg falou publicamente que se fosse criar o Facebook hoje em dia, as configurações de privacidade seriam do jeito que são hoje desde o começo. Ele ainda disse que as noções de privacidade estão evoluindo e que a empresa mudou sua política para acompanhar, depois citou a ascensão dos blogs como sua prova desta mudança.

Finalmente, a empresa tem dito há algum tempo que mais informações públicas levarão a uma maior familiaridade, compreensão e empatia entre as pessoas: que uma mudança para um Facebook público seria bom para a paz mundial.

Os Argumentos Contra a Mudança do Facebook

Dois anos atrás, o fundador do Facebook nos disse que o controle de privacidade “é o vetor em torno do qual opera o Facebook.” A empresa mudou drasticamente de opinião desde então.  Suspeitamos que esta mudança destina-se a aumentar o tráfego do site e publicidade: quanto mais páginas você pode ver, desimpedido por configurações de privacidade, mais anúncios o Facebook poderá mostrar para você.

Já falamos que as formas do Facebook justificar essas mudanças não são convincentes. Na semana passada publicamos esses três argumentos:

Mesmo que a sociedade esteja se afastando da privacidade, isso não justifica tirar a opção de manter as informações privadas. A pesquisadora da Microsoft danah boyd escreveu neste fim de semana:

As pessoas ainda se preocupam com a privacidade porque elas se preocupam com o controle. Claro, muitos adolescentes me dizem ‘público, por padrão, privado quando necessário’ mas isso não sugere que a privacidade está em declínio; isso sugere que tornar as informações públicas tem valor e, mais importante, que o povo é muito consciente quando algo é confidencial e quer mantê-lo privado. Quando a configuração padrão é privada, você tem que pensar em fazer algo público. Quando a configuração padrão é pública, você fica mais cuidadoso em relação à privacidade. E assim, eu suspeito, as pessoas estão mais conscientes da vida privada que nunca.

Nick O’Neill escreveu em seu blog InsideFacebook:

Quando o Facebook decidiu que ele tomaria essas decisões no lugar dos usuários, ele exagerou. O Facebook não precisa atualizar seu sistema para ‘refletir o que as normas sociais vigentes são’. Em vez disso, o Facebook deve dar aos usuários o controle total de sua privacidade e, como resultado, as configurações do usuário irão efetivamente ‘refletir em como as normas sociais vigentes deveriam ser’. Simplificar um sistema que dá aos usuários o total controle de sua privacidade não é fácil, mas o valor de tal sistema não tem preço, e se tratando do Facebook, é necessário.

Privacidade não é apenas manter as coisas em segredo, se trata do respeito do contexto de comunicação e não empurrar a comunicação das pessoas para fora do contexto a que se destina. Assim, o fato de que “nada é segredo na internet” está fora de questão. O estudante Chris Peterson escreveu em uma pesquisa acadêmica que; hoje as pessoas sentem que sua privacidade foi violada quando o que dizem para um grupo de pessoas é compartilhado para outro grupo em diferentes circunstâncias. O que o Facebook está fazendo é retirar as informações pessoais para fora de seu acesso restrito de “apenas amigos”.

Há muitas pessoas que precisam manter o controle sobre suas informações pessoais, para restringir o acesso somente aos amigos de confiança, como uma questão de segurança pessoal. A consultora técnica de identidade online Kaliya Hamlin escreveu para o ReadWriteWeb.com no mês passado: “essa jogada do Facebook representa uma violação de seu contrato com seus usuários.” Os cientistas foram capazes de determinar as preferências sexuais das pessoas através de uma análise de suas listas de amigos. As pessoas com preferências religiosas ou políticas que não são muito aceitáveis aonde eles vivem ou trabalham e pessoas que estão fugindo de relacionamentos, eram capazes de manter suas informações privadas somente para seus amigos de confiança no Facebook, agora não podem mais.

Um argumento similar foi exposto por danah boyd:

O poder de cada pessoa é fundamental para pensar nessas questões. Algumas pessoas privilegiadas não precisam se preocupar tanto com seus superiores observando-as pela rede. Essa é a definição de privilégio. Mas a maioria precisa se policiar. E essa ação de forçar as pessoas a compartilharem suas informações não desmancha a estrutura do privilegio, nem a estrutura de poder, pelo contrário. O que irrita é que isso só irá reforçá-las. Os privilegiados obtêm mais prestígio pela exposição. E aqueles que lutam para manter suas vidas são forçados a criar paredes que são constantemente derrubadas em torno deles. O professor, a mulher agredida, o garoto pobre que mora no gueto e tenta sair de lá. Como é que vamos levá-los em consideração quando nós construímos sistemas que expõem as pessoas? … As pessoas se preocupam profundamente com a privacidade, especialmente aquelas que muito têm a perder quando a privacidade não existe.

Finalmente, o escritor Nick Carr soltou um artigo nesse fim de semana intitulado: “Other Peoples’ Privacy.” Ele discutiu tanto a mudança do Facebook quanto a recente declaração do CEO da Google Eric Schmidt, de que “Se você tem algo que você não quer que ninguém saiba, talvez você não deveria fazê-lo em primeiro lugar.”

Carr ainda classifica a mudança anti-privacidade do Facebook e seus argumentos como uma ameaça à liberdade humana.

Lendo essas poderosas declarações da equipe do Facebook sobre privacidade, pode se suspeitar que o que eles estão realmente falando é da privacidade de outras pessoas, e não deles mesmos. Se você vive em uma mansão isolada com jatinhos particulares, toda cercada, com as melhores empresas de advogados lhe protegendo além de agencias de RP, você, eventualmente, enxerga a privacidade como um privilégio, e não como um direito. E se sua empresa obtém lucros com pesquisas de dados e Análise de Sentimentos, bem, isso é mais uma razão para se convencer de que a privacidade alheia pode não ser tão importante.

Há um perigo maior aqui. A difamação contínua da privacidade pode deformar nosso entendimento do que a “privacidade” realmente significa. Bruce Schneier escreveu, privacidade não é apenas uma tela que se esconde quando fazemos algo impertinente ou embaraçoso; privacidade é ‘intrínseca ao conceito de liberdade’:

Pois se somos observados em todos os lugares, estamos constantemente sob a ameaça de correção, julgamento, crítica ou até plágio da nossa própria singularidade. Voltaremos a ser crianças, presos sob olhos atentos, com um medo constante de que, agora ou num futuro incerto, padrões que deixamos para trás serão trazidos de volta para nos reprimir, seja por qualquer autoridade que tenha ficado responsável por nossos inocentes atos que uma vez foram privados. Perderemos nossa individualidade, porque tudo o que faremos seria passível de observação e até gravação.

Privacidade não é apenas essencial à vida e à liberdade; é essencial para a busca da felicidade, no sentido mais amplo e profundo da palavra. É essencial, como Schneier implica, para o desenvolvimento da individualidade, da personalidade única. Nós, seres humanos, não somos apenas criaturas sociais; também somos criaturas privadas. O que não compartilhamos é tão importante quanto o que compartilhamos. A maneira que escolhemos para definir o limite entre nossas vidas públicas e nossas vidas privadas irá variar de acordo com cada um, e por isso é tão importante estar sempre na defesa da capacidade e poder de todos para que cada um se proteja à sua maneira. Hoje, serviços online e bancos de dados desempenham um papel cada vez mais importante em nossas vidas públicas e privadas, e de uma maneira que podemos escolher para distingui-las. Muitos desses serviços e bancos de dados estão sob o controle corporativo, com fins lucrativos de empresas como a Google e o Facebook. Se essas empresas não podem ser confiáveis no respeito e na defesa dos direitos de privacidade de seus usuários, elas deveriam ser ignoradas.

Esses são os argumentos mais interessantes até agora. Nós não esperamos que essa discussão acabe tão cedo, então, o que você acha?

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