A Receita #lean Para O Sucesso: Mito ou Milagre?

O trem-bala do movimento lean vem fazendo adeptos no mundo inteiro. Os resultados apresentados falam por si. Cada vez mais empresas aplicam os princípios apregoados pela turma liderada por gente de peso, como Eric Ries e Steve Blank. E muitos casos de sucesso ajudam a confirmar o esperado: uma abordagem bem estruturada, com foco em resultados e com uma obsessão pela execução metódica de um processo iterativo de melhoria contínua,  permite a conversão de idéias em negócios em tempo recorde com uma eficiência altíssima.

Se tudo vai bem, qual é o problema então?

Aos poucos, o movimento lean começa a dar sinais de empolgação com o próprio sucesso. O que começou como uma campanha de evangelização das vantagens de uma abordagem eficiente e até minimalista para os negócios começa a ganhar contorno (digamos) messiânicos. E o que era apenas uma série de idéias e princípios, está se consolidando como processo.

A Inovação Como Processo

Innovation is about running a disciplined experiment

 

 

 

A idéia da inovação como um processo de experimento disciplinado não é nova. Podemos traçar um exemplo espetacular no trabalho do inventor Thomas Edison, que segundo a história, experimentou mais de mil materiais de forma exaustiva até chegar em uma lâmpada comercialmente viável. Edison teve mais de 1000 patentes a seu favor e é reconhecido hoje como pioneiro de vários setores. Mas também perdeu corridas importantes, como na telefonia e na geração de energia, onde seus projetos se mostraram inferiores aos de outros inventores da época, que seguiram um caminho diferente e conseguiram propor sistemas superiores aos desenvolvidos por Edison.

Atração Fatal

Ninguém gosta de lidar com incertezas, especialmente se o risco for seu. E o investidor não é diferente: mesmo que ele aceite o risco, no fundo ele sempre irá procurar estratégias que o reduzam ao máximo. E a promessa de um processo de inovação reproduzível é boa demais para deixar passar.

Mas mesmo que o método lean em si seja sólido, o risco de confiar exclusivamente no processo é ignorar outros fatores que são essenciais em uma inovação. Não basta seguir a receita, precisa ter os ingredientes certos. Uma startup tem que ter o time certo, com pessoas qualificadas. E precisa também de capacidade de criar soluções inovadoras, enxergando alternativas que nem sempre serão visíveis por simples desenvolvimento incremental.

Há bons motivos para acreditar que a inovação seja muito mais do que um processo, e por isso acreditar somente no processo é correr o risco de acreditar em um mito – muito atraente, por sinal, mas mesmo assim um mito (e perigoso como todos os mitos). De fato, o processo de inovação pregado pelo movimento lean funciona bem porque está baseado em princípios bem estabelecidos. Mas não se pode esquecer que os casos de sucesso foram obtidos por equipes extremamente capazes. O processo neste caso é o enabler que permite que a equipe opere com eficiência máxima. No entanto, atribuir cegamente o sucesso exclusivamente às práticas lean é o mesmo que acreditar em milagre.

0 responses to “A Receita #lean Para O Sucesso: Mito ou Milagre?

  1. Sensacional Carlos!

    Lembrei muito do artigo do Fábio Akita “Processos e Metodologias Não Vão Te Ajudar” (http://info.abril.com.br/noticias/rede/gestao20/software/processos-e-metodologias-nao-vao-te-ajudar/). Lá ele falava sobre desenvolvimento de software, mas a crítica é essencialmente a mesma.

    Nós, seres humanos, temos essa mania de pegar as receitas e achar que basta seguí-la que tudo dará certo. “Se o Dropbox seguiu a risca os conceitos de lean startup basta seguir também que tudo acabará bem”. Mentira! Os caras têm um time brilhante e executa como poucos, por isso eles se deram bem, entre outros motivos…

    Lean, seja ele Lean Startup, Lean Software Development ou, o original, Lean Manufacturing, funciona? Sim, se você entender a essência do conceito, ou como você disse: tem que ter os ingredientes certos (e saber misturá-los bem).

  2. Muito bacana Carlos. Concordo 100%.

    Adicionaria uma coisa ainda. Tenho visto muita Startup aqui no BR não fazendo o mínimo de exercício de análise e planejamento. A abordagem em geral é “joga um monte de coisas na parede e vê o que gruda”. Isso é tã anti-lean quanto não usar processo nenhum.

    Abs!
    @ericnsantos

  3. Bacana este post!

    Creio que sua crítica seja em relação ao processo pelo processo, isto em linguagem de empreendedorismo de padaria seria que os os caras descobriram a receita do bolo pra fazer uma startup dar certo.
    Creio que daqui pra frente teremos ainda mais teorias/teses/fórmulas sobre como ser bem sucedido com startups pq dá dinheiro falar disso, o povo compra. Um paralelo, são os envolvidos na bolsa de valores enchendo o rabo de dinheiro por serem capazes de “prever” as movimentações de mercado, munidos de ótimas “ferramentas/processos” fundamentalistas ou grafistas, é claro. =)
    Tudo isso peca por um simples e crucial fator que é o “olhar pelo retrovisor”. Tudo em retrospectiva soa óbvio e comum. Em startups, é condição ter que fazer o amanhã sendo o futuro, meus amigos, incerto por natureza.
    No curso de engenharia, me assustei, quando me deparei com as tais “tabelas de engenharia”, dados compilados por zilhões de experimentos de cientistas/engenheiros ao redor do mundo para se chegar ao tal processo/fórmula que mesmo depois de aplicado com “maestria” precisa ser levado em conta o “fator risco” para que aquele número “exato” achado tenha uma percentual margenzinha de segurança =)
    Pra fazer valer a enchição de linguiça do parágrafo anterior digo que processos que podem ser seguidos “à risca” são aqueles onde já foram encontradas soluções para problemas MUITO semelhantes e observáveis às mesmas “condições normais de temperatura e pressão”. Quando é proposto construir uma ponte mais larga, mais baixa, mais cumprida que as centenas de outras pontes que foram construídas usando um mesmo processo, por exemplo.
    Em startups não é sábido nem o problema real exato nem a solução mais eficiente e cada startup é diferente da outra seja em recursos ou proposição. Por isso lean startup não é receita de bolo.

  4. Diego, gostaria de ver um contraponto não entre “lean” x “fat”, mas entre “lean” x “fast”. Afinal, a vantagem de ser lean é ser rápido, mas pra ser rápido é preciso um mínimo de musculatura, no lugar certo. Esse é o primeiro engano. Não tem nada mais óbvio do que ser eficiente. Qual é a novidade então?

    O segundo (e maior) engano é a “ritualização” do processo de lean. Daqui a pouco teremos cursos de certificação em lean, customer development, etc. E engano final, que é o último prego na tampa do caixão, é o excesso de “auto-congratulação” (“nós somos demais”), como se só tivesse sucesso e se todos os que usam lean fossem imbatíveis. Quem dera fosse fácil assim!

  5. O Ken Schwaber disse mais ou menos isso em uma palestra no Google:

    “Scrum funciona com qualquer time, mas é necessário ter um cuidado. Se você tiver um time ruim, você terá um monte de merda no final do sprint”.

    Como o Gustavo falou: metodologias não ajudam, elas apenas servem para remover empecilhos. Elas não servem para que você faça alguma de forma certa, mas pode apontar falhas dentro da sua empresa/projeto.

    Com o Lean é a mesma coisa: ao invés de ter vários code-monkeys em um projeto estático e fechado que dura anos, você tem pessoas inteligentes que querem trabalhar sem impedimentos. O “milagre” está exatamente na equipe, como o Carlos disse no post.

    O grande problema da popularização de um conceito como o Lean (e outras metodologias) são as pessoas que tentam buscar receitas, de tornar o processo repetível, que tentam entrar em uma “zona de conforto”, que procuram uma forma do pensamento crítico e não ser mais necessário.

    Lean é uma ferramenta que lhe permite ir mais rápido através do corte de desperdícios. Se um time não é bom, ele apenas produzirá lixo de forma mais rápida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *