As Redes Sociais Estão Mudando A Indústria de Software

Poucos usuários são tão mal compreendidos como os desenvolvedores. O típico perfil de nerd não parece ter um grande apelo mercadológico. No entanto, a dinâmica da indústria de software tem uma ligação íntima com o desenvolvimento do mercado como um todo. Cabe aos desenvolvedores criar novos serviços, e isso só é possível se eles tiverem ferramentas cada vez melhores, que permitam fazer coisas novas e mais eficientes.

Hoje, o mercado de software está dominado por grandes empresas, fazendo ferramentas para grandes empresas. São produtos complicados e caros. Ninguém tenta seduzir os desenvolvedores mais. No máximo, a indústria tenta extrair o máximo de cada um: certificados, cursos e mais certificados. Mas nem sempre foi assim.

Um Pouco de História

Nos anos 80, a Microsoft calcou seu domínio da indústria com base em um fortíssimo suporte aos desenvolvedores. Para alavancar o Windows (e depois o Windows NT), a Microsoft produzia ferramentas para programadores e divulgava o conhecimento através de uma rede de conhecimento, distribuindo CDs muito antes que fosse possível fazer isso pela Internet. Atuando agressivamente a Microsoft criou um ecosistema que derrubou empresas fortes como Novell, WordPerfect e Borland. Em vários aspectos, a dobradinha VB & C++ talvez tenha sido tão importante como o Office é hoje.

A primeira geração da Internet teve grande impacto sobre a indústria de software. Foi nessa fase que projetos como o Linux e o Apache ganharam peso, e que empresas como MySQL e RedHat surgiram. Eram inovações reais de infra-estrutura, que viabilizaram inúmeros negócios e mudaram a forma como o software era escrito. A indústria do open source ganhou credibilidade. Porém, com raras exceções, a maioria das empresas surgidas nessa época não conseguiu se firmar no mercado de forma independente para inovar de forma consistente. Aos poucos, o mercado se consolidou, e hoje o MySQL é parte da Oracle, mas isso é história para outro post.

Passada essa fase, surgiu uma segunda onda, com  impacto bem diferente, com o amadurecimento de novas linguagens (como PHP, Javascript, Python e Ruby). Frameworks como o Jquery e o Ruby On Rails tiveram grande impacto sobre o desenvolvimento Web em geral. Porém, com toda sua relevância, essa fase não se compara em escala e importância tecnológica (em termos de infra-estrutura) ao que ocorreu na primeira fase. São produtos que tem apelo para o programador, mas que ainda não penetraram o mercado corporativo em larga escala. Não é uma indústria com empresas de bilhões de dólares – e para alguns clientes, isso faz diferença.

Uma Nova Geração de Software Para Uma Nova Indústria

Estamos assistindo agora ao começo uma terceira onda, bem diferente da segunda, e que guarda similaridades com a primeira. É uma nova onda de infra-estrutura, que pode mudar radicalmente a indústria de software. Dessa vez, são ferramentas que tem em comum:

1) Tecnologias inovadoras. Não estou falando de inovações incrementais, do tipo “agora o MySQL suporta transações”, mas de inovações radicais e com grande potencial disruptivo. São mudanças que afetam o funcionamento de componentes tão fundamentais como um gerenciador de banco de dados, e que irão permitir novos tipos de aplicação, indo muito além das redes sociais.

2) Quebra de paradigma, mudando radicalmente a arquitetura das aplicações. São mudanças que exigem que o desenvolvedor mude radicalmente sua forma de trabalhar.

3) Foco na comunidade. Esta é a primeira geração de software que é ativamente desenvolvida por empresas de grande porte que alavancam o potencial da comunidade “open source” de forma consciente e estratégica. Isso inclui não apenas liberar o código, mas trazer os desenvolvedores para perto da empresa, organizando eventos (como o Chirp e o F8) e estimulando o uso de suas ferramentas.

Empresas como o Facebook (com o Cassandra) e agora o Twitter (com o FlockDB e o Gizzard, por exemplo) atuam junto à comunidade de forma estratégica. Compare a postura com o MySQL (que sempre teve relação ambígua com a comunidade) ou com o próprio Google, que é um tipo de “primo mais velho” das empresas mais novas, e que parece sempre um pouco deslocado nesse ambiente. Curiosamente o Yahoo! (mais velho que o Google) tem conseguido sucesso com uma grande comunidade ao redor do Hadoop. Mas a liderança parece ser mesmo de empresas novas, que entendem a nova mentalidade de uma forma bem diferente da geração anterior.

Essa é uma mudança profundamente disruptiva, em todos os aspectos: social, tecnológico e econômico. Não se trata de uma biblioteca desenvolvida no tempo livre por um grupo de amadores, mas de componentes fundamentais da arquitetura, desenvolvidos por programadores experientes e bem pagos, mantidos por empresas com valor de mercado de bilhões de dólares. Tudo isso disponível de graça. O potencial é fantástico. Se eu estivesse do outro lado (leia-se Oracle e Java), estaria pensando seriamente no que fazer a respeito.

0 responses to “As Redes Sociais Estão Mudando A Indústria de Software

  1. Belo artigo Carlos!

    De fato estamos passando por uma grande mudança na forma como desenvolvemos
    nossas aplicações para a web.

    Todos esses Mashups que agora podem ser criados utilizando a infra e arquitetura
    de grandes corporações abrem realmente uma enorme porta para novas idéias e
    possibilidades. É muito animador!

    Mas existe um ponto onde você compara a postura do Twitter e Facebook em relação
    ao apoio dos desenvolvedores com a postura do MySQL, e posteriormente coloca Oracle
    e Java como sendo o “outro lado” da história.

    É difícil comparar coisas diferentes. Diferentes no propósito e também na origem.

    Twitter e Facebook nasceram como aplicação e se transformaram
    em plataforma. Acho complicado botar na mesma categoria Oracle (na figura do MySQL)
    e Java porque eles são na verdade o caminho oposto e servem a um propósito que é
    algo que acontece ANTES que uma aplicação exista (ou seja, MUITO antes que uma API
    para acessar uma aplicação exista também).

    Se você estivesse comparando o apoio que os desenvolvedores Java recebem, com o
    apoio que os desenvolvedores .NET recebem, aí sim poderíamos falar de “lados”.

    Mas apesar de não achar muito adequada este tipo de comparação tenho que concordar
    que a Oracle realmente tem deixada MUITO a desejar para a comunidade (tanto MySQL
    quanto Java).

    Seguindo esta mesma linha de se aproximar estratégicamente dos desenvolvedores,
    vemos a Microsoft com programas como o Microsoft Bizpark, fomentando novas
    startups e “viciando” as empresas ainda em estágio de semente em suas ferramentas.

    Enquanto (agora sim) “do outro lado”, a Oracle é inerte.

    A Red Hat, proprietária do servidor de aplicação JBOSS e frameworks voltados
    para facilitar a vida do desenvolvedor JAVA (tais como JBOSS Seam, e Hibernate),
    esta sim, está muito mais a frente que a própria Oracle em termos de proximidade
    com a comunidade. No entanto, o alcance deles é bem menor do que o alcance que a
    Oracle poderia ter caso tentasse esta aproximação de forma estratégica.

    Assim, entendo que JAVA ainda tem um “padrinho” que tenta fazer este papel de
    aproximação. Já o MySQL é o órfão, o patinho feio dos bancos da Oracle que se vê
    obrigada a distribuir um banco gratuito (pelo menos por enquanto).

  2. João Pedro,

    > É difícil comparar coisas diferentes. Diferentes no propósito e também na origem.

    Essa é a raiz da questão, pois é a definição de uma inovação disruptiva: uma inovação que muda as regras do jogo, que trabalha em uma cadeia de valor diferente, e que justamente por isso desmantela a estrutura de domínio das empresas líderes de mercado.

    O risco da Oracle é “ouvir demais seus clientes” e continuar seguindo o mesmo caminho: aumentar o poder do banco de dados (mas sem adotar nenhuma prática radical), e verticalizar ainda mais suas ofertas de aplicativos empresariais (CRM, ERP, etc.).

    Enquanto isso o mercado irá utilizar, primeiro de forma experimental mas depois de forma cada vez mais profissional ferramentas inovadoras, como o Cassandra, o MongoDB e outras do tipo. A hora que essas plataformas atingirem um certo patamar de maturidade, elas irão começar a corroer a base do Oracle de um jeito que o MySQL não poderia nunca fazer.

    O mesmo irá acontecer com os grandes sistemas corporativas, pois plataformas sociais também tem potencial disruptivo – a começar pelos CRMs, que deixarão de ser simples bancos de dados relacionais para serem verdadeiras redes sociais organizadas em torno de uma empresa.

    Este é um jogo que a Oracle não sabe jogar. O Facebook não está à venda, nem o Twitter. Os dois ainda tem muito que fazer e aprender mas a rota de colisão está traçada. É por isso que eu acho que mudança não será imediata, mas mesmo assim será inevitável.

  3. O Carlos falou bem: O Facebook não está à venda, nem o Twitter. E ambos estão comoditizando tecnologicamente várias coisas que são oferecidas apenas pelos grandes e para os grandes.
    Graças ao Fb e ao Twitter(Cassandrinha e Giz…), hoje pode-se desenvolver na sua garagem uma aplicação pronta para rodar em um cluster com milhares de máquinas. Isso é bom pois gera todo um ecossistema de negócios que antes eram inviáveis, um mérito das “redes sociais”.
    Se não houver uma mudança em como e porquê estas tecnologias são produzidas e comercializadas, a Oracle vai passar por dificuldades em breve. Pago pra ver a situação deles em 10 anos. Reinvent or Die.

  4. 1) Comoditizando, e mais ainda, *amadurecendo* tecnologicamente, investindo pesado. E ainda por cima montando uma comunidade de desenvolvedores em torno disso. É esse lado “social” da análise da inovação que é fundamental e que muitas vezes passa despercebido.

    2) Além de rodar em milhares de máquinas, não será apenas um “SQL em escala”, será algo diferente, que não poderá ser copiado e executado em um mega-cluster Oracle de US$ 1 mi (ou mais). Pra surpresa de muita gente, tem coisa que dinheiro não compra…

  5. A última frase do seu post (“Se eu estivesse do outro lado (leia-se Oracle e Java), estaria pensando seriamente no que fazer a respeito.”) foi parcial… ou seja, mostrou a preferência do escritor por certa vertente liberalista do setor de tecnologia…

    Quantos bilhões de dolares em transações diárias são suportados por Oracle-Java?

  6. A última frase do seu post (“Se eu estivesse do outro lado (leia-se Oracle e Java), estaria pensando seriamente no que fazer a respeito.”) foi parcial… ou seja, mostrou a preferência do escritor por certa vertente liberalista do setor de tecnologia…

    Quantos bilhões de dolares em transações diárias são suportados por Oracle-Java?

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