Voltando com a segunda entrevista da CEO Series do Webholic. Espero que estejam gostando. Hoje entrevisto um cara que admiro muito, e é um grande mentor na minha (ainda curta) trajetória como empreendedor.  O Luciano é fundador do Magnetis, investidor anjo e tem um track record animal no mercado financeiro. Ele foi um dos primeiros caras a acreditar no meu time, quando a gente ainda nem fazia ideia do que estava fazendo. Leia e não se arrependa 😉

  • Luciano, você é um dos caras que mais entende de fin tech (tecnologias voltadas para finanças) no Brasil e fundou a Magnetis para ajudar a evoluir este mercado. Quais as principais deficiências e oportunidades que você vê no mercado local?

O mercado de serviços financeiros no Brasil é gigantesco e ineficiente. Isso é a receita perfeita para a inovação disruptiva, no modelo clássico do Christensen.

Uma característica peculiar do mercado brasileiro é a enorme concentração nos 5 maiores bancos, dois deles estatais. São grandes conglomerados que atuam simultaneamente em todos os segmentos financeiros (crédito, investimentos, seguros, pagamentos, etc). Nos EUA, existe uma divisão bem clara entre os segmentos até mesmo por motivos regulatórios, o que torna o mercado lá muito mais fragmentado e dinâmico.

Essa alta concentração faz com que as instituições financeiras aqui tenham um grande poder, mas também as tornam mais lentas para adotar novas tecnologias e modelos inovadores. Essa dinâmica dá a oportunidade para empresas pequenas e ágeis saírem na frente e capturarem nichos onde as grandes instituições não conseguem atender. Muitas vezes são os próprios bancos que, anos depois, vão tentar adquirir esses players.

Há inúmeras oportunidades nesse mercado, mas nós decidimos focar no segmento de investimentos, até mesmo pela minha experiência nesse setor. Só para se ter uma ideia do tamanho da oportunidade, atualmente são R$ 2.5 trilhões investidos somente em fundos. Trilhões com “T” mesmo. Um terço disso é detido por pessoas físicas, a maioria delas atendidas pelo gerente do banco, no mesmo modelo de 50 anos atrás.

  • Você montou um time de produtos/desenvolvimento fantástico na sua empresa. Recentemente vi que vocês publicaram os guias de estilo de código e eu achei isso demais pois não é tão comum no Brasil. Qual o segredo para montar um time campeão?

Eu acredito que o time é o principal fator determinante do sucesso ou fracasso de uma startup de tecnologia. E quando falamos de tecnologia, a produtividade do time segue uma curva exponencial. Por exemplo, o melhor atendende de um banco é no máximo 50% mais produtivo que um bom atendente. Já um excelente programador pode produzir 10, 20 vezes mais do que um programador que seja apenas bom. Isso apenas ressalta a importância de ter um time de primeira linha.

Mas o grande desafio é atrair e, principalmente, manter essa turma. Anteriormente o modelo de emprego era trabalhar em uma grande empresa que proporcionasse um bom salário e um plano de carreira estável, ainda que numa atividade que trouxesse pouca satisfação pessoal.

A nova geração não compartilha desses valores. Eles querem trabalhar numa empresa onde eles acreditem que realmente estão fazendo uma diferença no mundo, onde eles possam trabalhar junto com outros profissionais de primeira linha e principalmente fazer parte de uma cultura de constante aprendizado. O salário acaba sendo o quarto ou quinto item na lista de prioridades. Não existe uma bala de prata, mas é essa cultura que implementamos na Magnetis.

  • Lembro como se fosse ontem quando você me chamou para fazer o curso de Ruby on Rails do Bloc, em 2012. Qual o impacto deste curso na sua vida? Como andam suas habilidades de desenvolvimento hoje? (Com certeza melhores que as minhas, ha ha)

O curso isoladamente não foi tão importante assim. Fez parte de processo de um longo aprendizado, que vem desde quando ainda estava na gestora de investimentos da qual era sócio. Lá eu vi que o mercado estava sendo engolido pela tecnologia e quem não entendesse do assunto iria ficar obsoleto.

Botei na cabeça que tinha que aprender a programar, então comecei pelo C++ que era bastante utilizado no mercado financeiro. Encontrei uns cursos de Stanford, que era basicamente a filmagem das aulas presenciais. (Na época não existiam os MOOCs.) Estava apanhado bastante, até que o Manoel Lemos (Chief Digital Officer da Abril) falou para mim: “Esse trem é difícil demais, acho melhor começar pelo Ruby.” Realmente foi bem mais fácil de aprender.

Eu sempre fui procurando aprender de todas as formas que podia. Lia muitos livros, assistia cursos online, ficava fazendo um monte de pergunta para qualquer coitado que eu pegava para cristo. Mas o mais importante foi colocar a mão na massa e aprender na prática mesmo. Acho que o maior aprendizado foi ajudar a desenvolver o Magnetis. No início não tinha muito o que fazer na área de negócios e então eu sentava lá com o Fabiano (CTO) e a equipe de desenvolvimento e ficava escrevendo código. Acho que uns 15% das linhas de código foram minhas. E provavelmente 95% dos bugs… Hoje já me sinto bem mais confortável, mas infelizmente não tenho mais tempo.

  • Você tem um projeto open source fantástico, o Dealbook, que você fez durante este curso e eu tive a chance de colaborar. Como foi a experiência?

Eu? Você que é o pai da criança! Eu só fiz o aplicativo web para facilitar a colaboração dos usuários. O engraçado que o código foi escrito quando estava começando a aprender Rails, portanto está bem ruim. Como o projeto é open-source, o repositório fica no Github para mundo inteiro ver. Humilhação em praça pública!

Mas, por incrível que pareça, o app funciona legal e isso que importa no final das contas. Eu até comecei a reescrever tudo usando um stack mais moderno com uma API que pode servir múltiplos aplicativos inclusive mobile. Aguardem!

A experiência tem sido fantástica, tanto do ponto de vista de desenvolvimento pessoal, como de conhecer pessoas interessantes. Tivemos contato das pessoas mais variadas: investidores, empreendedores, jornalistas, estudantes, etc… É gratificante saber que de alguma forma aquelas informações ajudaram a aumentar a transparência do ecossistema.

  • Qual o seu Hobby? O que você faz quando não está na Magnetis?

Não sei se dá para chamar de hobby mas gosto de investir e ajudar outras startups. Montei a Napkn Ventures (junto com o Manoel) e hoje já temos 7 investimentos em empresas como ContaAzul, RockContent, BankFacil. Não sou ativo nas gestão dessas empresas, mas trocamos bastante figurinha que inclusive me ajuda bastante na Magnetis.

No resto do tempo que sobra, gosto também de ler e programar. Fico desenvolvendo apps ou aprendendo uma nova linguagem. O difícil é acompanhar o ritmo, todo dia aparece algo novo e falta tempo para aprender tudo. Não consegui nem olhar o Swift ainda. Tem também o Elixir que é uma linguagem muito promissora, desenvolvida em cima do Erlang mas com uma sintaxe mais amigável inspirada pelo Ruby.

Como esporte, gosto de praticar jiu-jitsu. Vou quase todos os dias de manhã cedo. Depois de acordar 6:00 para apanhar, o resto do dia fica fácil!

 

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