Como o Facebook Open Graph Afetará sua Vida?

O Facebook chocou a comunidade tecnológica ao anunciar na semana passada várias iniciativas que coletivamente constituem um passo agressivo para tecer sua rede social no topo da web. Os rumores eram de que a principal rede social iria lançar um botão de “Gostei” para toda a web. Em vez disso, Zuckerberg e sua equipe divulgaram uma nova plataforma ousada e visionária que chamou a atenção.

As características desta plataforma reúnem visões de uma web personalizada que tem sido discutida desde o pioneiro da Web 2.0 del.icio.us, em 2004. A visão do Facebook é tanto minimalista quanto abrangente, mas sua ambição é matar a sua concorrência e utilizar os seus 500 milhões de usuários para conquistar toda web.

Gostando ou não, temos que entender o que significa esta jogada. Isso afetará usuários, publishers, concorrentes e, claro, o próprio Facebook. Neste post vamos resumir o que foi anunciado pela empresa e refletiremos sobre o impacto que isto terá em nossas vidas.

Facebook Open Graph: Plugins para Publishers

O Open Graph é um conjunto de plugins para editores, com marcações semânticas e uma API em desenvolvimento.

Login com o Faces & Facepile: Os plugins mais simples reforçam o Facebook Connect. Eles facilitam e atraem usuários para entrar no Facebook aproveitando os cookies e mostrando rostos de amigos que já são membros do serviço.

Like Button e o Like Box: Esses plugins adicionam o recurso de gostar e divulgar qualquer conteúdo, ou a página inteira. Ambos podem ser reforçados com marcações semânticas descritas abaixo. Mas o objetivo básico é conseguir que usuários que gostarem de algum site, postem o link no Facebook, que então ficará armazenado permanentemente no perfil do usuário e apontando para o site original.

Activity Feed e a Live Stream: Esses plugins mostram a atividade estática e dinâmica no site. O Activity Feed lista o que o usuário gostou recentemente e os comentários do site, enquanto o Live Stream mostra a visão em tempo real da atividade no site e se destina a eventos interativos.

Recomendações: Este plugin exibe recomendações personalizadas para o usuário baseado no que seus amigos e outras pessoas estão gostando do site. Tem o objetivo de incentivar a navegação do usuário para outras páginas do site.

Facebook Open Graph: Marcações Semânticas

O Facebook anunciou marcações simples baseadas em RDF para melhorar os plugins. Resumindo, a marcação permite que os editores divulguem o que está na página – um filme, um livro, um artista, um evento, etc. Isto automaticamente habilita a semântica, ou seja, a consciência de que o usuário não está apenas interagindo com uma página da web, mas que ele está gostando de uma parte específica do site. A semântica em seguida leva aos objetos divididos em categorias como livros, filmes, música, etc, e dá origem a todo tipo de aplicação, incluindo as recomendações personalizadas.

Talvez mais importante ainda, a marcação ajuda ao Facebook a conectar os usuários com interesses em comum em diferentes sites. Por exemplo, se o Pandora e o Last.fm usar a marcação do Facebook em uma página sobre os Beatles, os usuários serão capazes de verem seus amigos que gostam de Beatles em sites diferentes. Isto é muito significativo, porque os dados dos amigos são escassos e espalhados pelos sites. Anteriormente, o Facebook jogaria esses dados na stream sem nenhum aproveitamento. Agora, a informação sobre os interesses dos amigos serão permanentes nos perfis do Facebook e disponíveis pela web.

Facebook Open Graph: A Nova API

A nova API do Facebook é elegante e racionalizada. Facilita o acesso do usuário à informações (com permissão) como os perfis, os amigos, etc. Todas as chamadas são baseadas em REST e o retorno com objetos JSON. Por exemplo, as informações de um perfil podem ser obtidas assim: http://graph.facebook.com/nomedousuario. A autenticação é baseada no protocolo OAuth 2.0 e facilita não só para se conectar, mas também para solicitar permissão do acesso às informações do usuário.

Essa nova API transforma o Facebook em um armazenamento dos Interesses de usuários com possibilidades de leitura e escrita de informações. Para todos os usuários do Facebook.

Implicações para os Usuários

Com este lançamento, o Facebook pergunta aos usuários se eles estão dispostos a trocar a privacidade por personalização. Mas a personalização não é possível sem que os usuários informem seus interesses para um sistema. O Facebook está pedindo o necessário para tornar a experiência da web mais personalizada. Se os usuários querem ou não este tipo de coisa, é outra questão, mas supondo que eles querem saber mais sobre seus amigos, parece sensato algo nesta linha.

Os interesses de amigos em entretenimento serão categorizados e disponíveis. Será mais fácil descobrir do que seus amigos gostam em toda a web pelo Facebook. Além disso, o Facebook irá utilizar seu motor para entregar recomendações de conteúdo relacionado. Isso vai acelerar ainda mais a descoberta e o compartilhamento de links entre amigos. Isso provavelmente terá impacto também na quantidade de buscas que as pessoas fazem na web.

Porém, o maior problema dos usuários será a privacidade. Ainda não sabemos se a privacidade é uma das principais preocupações dos usuários do Facebook, mas a comunidade tecnológica mundial está desconfiada. Muito se diz que o Facebook aos poucos está descobrindo muito sobre os usuários, e que em breve terá o controle sobre eles também.

Pessoalmente acho que os usuários não se preocupam muito com isso. As pessoas geralmente são ingênuas se tratando de privacidade na web e, provavelmente, isso não será exceção. E provavelmente, os usuários do Facebook irão apreciar os aspectos de personalização da nova plataforma e não irão pensar muito em privacidade, pelo menos até mais uma medida controversa do Facebook.

Isto não foi falado na F8, mas o Facebook pode utilizar a informação para segmentação. Afinal, a publicidade já é parte importante de sua monetização, então porque não torná-la melhor? Se isso acontecer, é possível que deixe irritar muitos usuários insatisfeitos e irritados. Mas é provável que o Facebook alivie com créditos do próprio Facebook e grandes descontos, negociados pelo seu grande volume.

Como exatamente os usuários irão reagir é impossível prever, mas provavelmente irão gostar mais do novo Facebook por causa da maior relevância e interação com os amigos.

Implicações para Publishers

Aparentemente, para os editores, esta oferta do Facebook dispensa análise. Quem não quer mais atividade social em seu site? Mas na realidade, isso está longe de ser um tiro certo. Para entender o porquê, considere dois tipos de sites: sites que são redes sociais ou, que possuem uma rede social integrada, ou sites que possuem seus próprios sistemas de comentários e classificação. No primeiro exemplo, podemos citar Last.fm, Flixter, Goodreads, etc. Nenhum desses sites foram um parceiro de lançamento. As conexões sociais em torno da música, dos filmes e livros são as avaliações, opiniões e recomendações. Se eles mudarem para o Facebook, o que eles terão?

Então, qualquer site que já possui uma rede social integrada precisa decidir se pretende abandoná-la antes de entrar no Facebook Open Graph. Pior ainda é a posse das avaliações e comentários. Será que os editores estão prontos para abrir mão deles? Ninguém pensa seriamente que os usuários vão avaliar através do Facebook e depois pelo site. Então como isto irá funcionar? Neste momento não dá para responder, mas é provável que os editores vão querer de alguma maneira replicar ou exportar comentários e classificações que os usuários irão enviar ao Facebook pelo seu site. Talvez uma API aberta onde os editores possam manipular os dados seja a resposta, mas certamente alguns editores irão se preocupar com isto.

Mas, se você gerencia um site como o eCommerce, um blog ou um serviço como o Pandora, que atualmente não possui integrações sociais, esta oportunidade é ótima, pois começará imediatamente a reciclar suas páginas através da enorme força do Facebook de compartilhamento de links.

Implicações para os Concorrentes

Este é um passo brilhante e agressivo da parte do Facebook e empresas como o Twitter, a Google, o Yahoo, o MySpace, a AOL, o eBay, Amazon e outros, exceto a Microsoft, devem estar preocupados. Parece que a Microsoft está satisfeita com sua parceria com o Facebook, e talvez com razão. Há a possibilidade de parceria com o Bing, o que faria muito sentido.

Para todos os outros players da web, a preocupação é que o Facebook está tentando fechar o ciclo em possuir a atenção dos usuários. Aparentemente o Facebook não está satisfeito em apenas conectar as pessoas; ele quer conectar pessoas e conteúdo. E não é só isso, ele quer fazê-lo por toda web, e não só as pessoas, mas os amigos. Não é preciso analisar tanto para ver que o Facebook está criando um loop de feedback, que além do próprio Facebook, inclui os usuários e o resto da web, e genialmente exclui seus concorrentes.

Algumas coisas podem ser feitas pelos outros grandes players, a pior delas é tentar imitar o Facebook. O “eu também faço isso” que sempre vimos por muitas vezes recentemente, ainda não deu certo, e não é agora que irá funcionar. A segunda melhor escolha é tentar bloqueá-lo. Por mais estranho que pareça, pode funcionar. Há muitas preocupações de editores e usuários, e uma campanha cuidadosamente coordenada pode muito bem prejudicar esta iniciativa.

A terceira opção, aceitar e estender esta plataforma, tentar inovar em cima dela. Esta possivelmente é a melhor jogada. Inovação sempre superou a estagnação na web. O problema é que talvez não seja tão fácil abraçar esta iniciativa. Afinal, não parece que o Facebook pediu uma reunião com todos para que aconteça uma cooperação. Ele pode não estar aberto à cooperação, mas caso esteja, este é o melhor caminho a seguir.

Tecnicamente, o que o Facebook fez é elegante e correto. Tudo o que foi anunciado é moderno e impressionante. O pouco que falta é que o Facebook parece ser o único repositório de dados dessa equação – e isso faz com que toda oferta seja fechada. Os editores e usuários não têm escolha quanto ao local onde armazenar os dados. Eles vão para o Facebook, e pronto. Talvez haja uma maneira de reformular o sistema de uma forma que isso seja corrigido, mas quem sabe.

Implicações para o Facebook

Evidente que este anúncio é outra jogada importantíssima do Facebook. Antes da conferência, o Facebook era a maior rede social do planeta. Se isso tudo realmente acontecer, o Facebook será a maior rede de pessoas e conteúdo do planeta.

Obviamente o Facebook precisará construir uma tecnologia diferente. Ele já aperfeiçoou a sua rede social, mas a parte da análise semântica, os sistemas de recomendação, as categorias, e também o armazenamento aberto de interesses (read/write), isso é completamente novo para a equipe. O maior desafio para o Facebook será a injeção, re-entrega e, principalmente, fazer uso dos dados que irão chegar.

Para se preparar para esta próxima fase de sua vida, o Facebook precisará fazer muitos cálculos e renovar completamente a interface do usuário. Mas a maior experiência e desafio será a entrega de relevância. A Google teve sucesso com a busca; o Facebook agora terá o desafio de trazer relevância para o campo das recomendações e dos anúncios baseados em interesses.

Implicações para a Web Semântica

Uma das partes mais emocionantes de tudo isso é o possível avanço em tornar a web semântica. Já falamos sobre a web semântica aqui, e tem sido uma paixão para muitos dos nossos autores. O que o Facebook anunciou tem chance de tornar grande parte da web dos consumidores semanticamente marcada por categorias. Editores e sites finalmente terão um forte incentivo para utilizar as tags e ter tráfego de retorno do Facebook.

O protocolo real que o Facebook sugeriu é muito simples. Para descrever o objeto desta página, o proprietário do site precisa especificar o título, o tipo de objeto, imagem, url e o nome do site usando meta tags simples. O formato é extensível e tags adicionais podem ser adicionadas. Por exemplo, para um livro, um site pode adicionar um número ISBN. Este formato deixa margem para ambigüidades. O objetivo clássico das marcações semânticas é para se referir a entidades precisamente; por exemplo, adicionando o diretor ao filme, ou as datas nos remakes. O protocolo do Facebook não parece ter isso.

Muitos tentaram efetivar as marcações na web como o RDF, o microformats, o Google Rich Snippets, o Search Monkey do Yahoo (baseado no RDF e no microformats), e recentemente o abmeta. De todos esses formatos, o Facebook é mais semelhante ao abmeta, isso porque a marcação é colocada em meta tags, e é simples e legível. Esta simplicidade é a chave para uma adoção mais ampla.

Esta é uma grande oportunidade para a web semântica finalmente atingir o consumidor e criar vida.

Implicações para os Desenvolvedores

Cada nova plataforma rica que tem sido implementada nos últimos anos apresentou uma grande oportunidade para os desenvolvedores e esta não é exceção. Ainda não sabemos que tipo de aplicações serão construídas em cima do novo Facebook, mas sabemos que serão poderosas. Esta plataforma tem o potencial para dar origem a um novo tipo de personalização e economia de atenção que as pessoas têm falado por anos. Claro que também tem a chance de dar errado, mas sejamos otimistas.

Esta será uma corrida pelo ouro para aplicativos que deve durar pelo menos um ano, assim como foi a última. É muito cedo para dizer se esta será uma plataforma que sobrevive sem prejudicar seus participantes. No entanto, é muito provável que os melhores aplicativos desenvolvidos nesta plataforma serão do Facebook. Ainda assim, aqui está uma grande oportunidade para desenvolvedores, e o céu é o limite.

Xeque-mate?

Facebook fez uma grande jogada de xadrez. Pode ser que seja um xeque-mate para seus concorrentes, ou talvez possa ter de perder outra peça. Seja qual for o caso, no momento existem grandes implicações para o Facebook, seus concorrentes, editores, usuários e para a web em geral. O que o Facebook anunciou não pode ser ignorado e nem desfeito. Todos precisam descobrir qual será o próximo passo e assim, saberão o que fazer.

Somente o tempo dirá, mas creio que algo positivo sairá disto. Caso esteja errado, vamos dar algum crédito ao Facebook pela tentativa de inovação e de re-imaginação da web.

6 responses to “Como o Facebook Open Graph Afetará sua Vida?

  1. Este post não é um simples post, é um trabalho jornalístico de primeira. Parabéns mesmo!
    Tenho uma pergunta: vcs relataram no post que o facebook poderá ser a maior rede de pessoas e conteúdo do planeta. Todo esse conteúdo tem que ir para algum lugar e é sabido que o Google indexa tudo que transita na web. Estaria o Facebook virando um Google, mas pelo outro lado, começando pelo relacionamento das pessoas?

  2. Este post não é um simples post, é um trabalho jornalístico de primeira. Parabéns mesmo!
    Tenho uma pergunta: vcs relataram no post que o facebook poderá ser a maior rede de pessoas e conteúdo do planeta. Todo esse conteúdo tem que ir para algum lugar e é sabido que o Google indexa tudo que transita na web. Estaria o Facebook virando um Google, mas pelo outro lado, começando pelo relacionamento das pessoas?

  3. Obrigado pelo elogio, @cristianosilver. Bom, o Google indexa tudo que transita na web, exceto o que está protegido sob a área de login do Facebook. Na minha opinião o Facebook acabará virando o pool de informações sociais da web, um banco de dados de pessoas e preferências e o Google se tornará o organizador da informação que acontece fora do Facebook. Ainda tenho esperança de uma API social que plugue as 2 plataformas. Vamos esperar para ver.

  4. Obrigado pelo elogio, @cristianosilver. Bom, o Google indexa tudo que transita na web, exceto o que está protegido sob a área de login do Facebook. Na minha opinião o Facebook acabará virando o pool de informações sociais da web, um banco de dados de pessoas e preferências e o Google se tornará o organizador da informação que acontece fora do Facebook. Ainda tenho esperança de uma API social que plugue as 2 plataformas. Vamos esperar para ver.

  5. Apesar de ser ainda um bicho de sete cabeças, essas novas ferramentas atraíram bastante nossa atenção para conquistar novas visitas ao site e consequentemente novos clientes.

    Acredito que o botão “curtir” como básico já traz diversos resultados, mas com certeza iremos nos aventurar nas outras ferramentas.

    Paulo

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