Guia Básico para Apresentar Sua Startup a Investidores – Parte 1

Autor Convidado: Guilherme M L Cohn é analista financeiro do HorizonTI Fundo de Investimento em Empresas Emergentes Inovadoras, de R$20 milhões criado pela Confrapar Participações S/A, apoioado pelo Programa Inovar Semente da FINEP, FAPEMIG, BDMG e outros 30 investidores privados.

O aporte de um fundo de capital de risco é ao mesmo tempo um sonho e um mistério para muitos empreendedores atualmente. Um investimento infere inúmeras consequências às empresas, e se a opção do empreendedor for seguir por este caminho, é preciso fazer o dever de casa, e pesquisar bastante sobre esta decisão. Mas uma vez que ela esteja tomada por parte do empreendedor, o processo que usamos na Confrapar, no fundo HorizonTi, é basicamente o seguinte:

1. Um projeto precisa passar pela primeira etapa da avaliação, a apresentação de um Sumário Executivo do Plano de Negócios, ou mesmo um pitch (para ver um exemplo, vá à área do empreendedor do site do Fundo HorizonTI). Há diversos modelos de sumário, e cada VC usa o que mais for conveniente, mas o importante é ser breve e objetivo na exposição de suas idéias. Dificilmente, alguém irá ler uma apresentação com 25 slides…

2. Se o projeto for apresentado e aprovado, será necessário analisar melhor o Plano de Negócios, e para isso, assinaremos 3 termos:

  • Confidencialidade (NDA) – motivo: resguardar detalhes do produto da empresa, oportunidades de mercado, dados da equipe, estratégia de atuação, modelo de negócios, dentre outros. Além disso, precisamos ter certeza que será mantido em sigilo o fato de que o fundo está analisando a empresa;
  • Exclusividade – motivo: segurança de que a sua empresa só está em negociação de investimento com o fundo em questão.
  • Propriedade Intelectual – é um contrato assinado entre a Empresa e seus colaboradores. Motivo: garante que tudo que foi produzido na Empresa é da Empresa, e não dos seus desenvolvedores.

3. Assinados os termos, o fundo partirá para a análise do Plano de Negócios. É de responsabilidade dos empreendedores a elaboração do Plano de Negócios, que geralmente, têm que cobrir pontos demandados pelo fundo, como análise do mercado, definição do modelo de negócios, opções reais, possíveis estratégias de saída do investimento, plano de remuneração para diretores e demais gestores, análise financeira, informações sobre os membros da equipe, etc. Essa etapa, de análise do Plano de Negócios, deve durar 2 meses, e tudo deve estar em perfeita consonância: planilha financeira, modelo de negócios, expectativa de contratação de mais equipe, etc.

4. Enquanto o Plano de Negócios é analisado, a equipe do fundo fará também a análise da term sheet (carta de intenções) junto aos empreendedores. Essa term sheet coloca de forma clara questões relativas a sociedade e o relacionamento societário futuro entre fundo e Empresa, interesses do fundo, valuation, dentre outros. Esse é um documento que deve ser estudado junto a um advogado, e o ideal é que os empreendedores façam uma pesquisa em modelos de term sheet, para não haver surpresas de última hora.

5. Uma vez finalizado o Plano de Negocio e assinada a term sheet, os empreendedores confeccionarão uma apresentação de aproximadamente 12 slides a ser feita para o Comitê Interno do Fundo (isso pode variar entre fundos). Essa apresentação será feita pelo empreendedor, e pode demorar algumas horas. Lembrando que essa apresentação é eliminatória, ou seja, caso o projeto não seja aprovado pelo Comitê Interno não haverá prosseguimento nas tratativas do fundo com a Empresa.

6. Após a apresentação ao Comitê Interno, provavelmente aparecerão mudanças a efetuar no Plano de Negócios. Haverá pouco tempo para tal, uma vez que a equipe do Fundo irá elaborar o Caderno de Investimento, com base no Plano de Negócios. Esse Caderno irá para os investidores do Fundo, membros de um comitê especial de investidores nomeados para decidir pela efetuação dos aportes ou não.

7. Nesta instância, são alguns investidores os responsáveis pela análise e julgamento por meio da leitura do Caderno de Investimento, term sheet e apresentação da empresa. Essa apresentação também é eliminatória, ou seja, caso o projeto não seja aprovado por esse Comitê, não haverá prosseguimento nas tratativas do fundo com a empresa.

Na próxima semana, falaremos sobre diligência, investimento em si e passaremos um cronograma completo com algumas dicas para prosseguir, na segunda e última parte deste artigo. Gostou? Alguma dúvida? Manifeste-se nos comentários

0 responses to “Guia Básico para Apresentar Sua Startup a Investidores – Parte 1

  1. Guilherme, parabéns pela iniciativa do post. Realmente, o mercado de investimento é um mistério para a maioria dos empreendedores que eu conheço, e desmistificá-lo vai trazer benefícios para todo mundo.

    Uma boa parte dos empreendedores planeja recorrer a investimento profissional um dia, mas há muito medo do processo ser longo, burocrático e tirar o foco do desenvolvimento. Junte-se a isso a quase ausência de pequenas empresas no Brasil que obtiveram sucesso com investimento, e cria-se uma predisposição a nem tentar. Na verdade, acho que parte dessa predisposição também vem do medo de colocar seu grande projeto, sua grande idéia, à prova de uma visão crítica.

    Mas eu vejo uma mudança significativa acontecendo no mercado nos últimos meses, com muito mais informação e transparência. Me parece que o modelo está ficando mais “azeitado”.

  2. Oi Guilherme,

    Parabéns pelo texto, é bem esclarecedor. Tenho duas dúvidas:

    1 – Essa prática de assinar um NDA em relação ao plano de negócios é só aqui no Brasil ou no resto do mundo? Me recordo de já ter lido em vários blogs estrangeiros que investidores não assinam NDAs para planos de negócio, o máximo que um investidor (honesto) faria seria declarar para o empreendedor que pode estar analisando uma oportunidade semelhante ou que já tem um investimento semelhante no portfolio.

    2. O termo de exclusividade é sempre obrigatório? Também de leituras de blogs estrangeiros, me recordo de diversas menções a empresas recebendo múltiplos term-sheets, portanto não me parece ser prática comum lá fora também. Particularmente eu acho que a exclusividade é extremamente desfavorável ao empreendedor e o investidor pode usá-la de forma desonesta.

  3. Oi Guilherme,

    Muito bom o conteúdo do post. Esse tipo de esclarecimento é fundamental tanto pra nós empreendedores tanto para o trabalho do próprio fundo.

    Na última semana assisti uma apresentação de um outro fundo. Foi enfatizado o fato de em um determinado momento o plano não ser atrativo para investimento e ser descartado, por diferentes motivos. Mas logo em seguida, após uma readequação de estratégia ou algo do tipo, ser aprovado.
    Isso é uma prática comum de ocorrer? Os projetos uma vez descartados (mas que possuem alguma atratividade) continuam sendo monitorado pelos fundos?

    Abraços.

  4. Olá Diego,

    Sobre o NDA, podemos encontrar investidores que assinam o termo, e o contrário também. Em nossas pesquisas, chegamos a resultados diferentes dos seus: a maioria dos investidores sim assina NDA, mas não em momento inicial da análise.

    Sobre o termo de exclusividade, não acho que prejudica o empreendedor. Acredito que antes de submeter material a um Fundo, é necessário estudar um pouco as opções. Há diversos fundos de capital de risco, cada um com uma característica diferente que irá trazer vantagens diferentes para a empresa.

    Se um fundo está analisando a sua ideia, uma quantidade enorme de tempo é alocada nisso. Modelar todo um plano de negócios, chegar à uma valuation, assinar os primeiros termos, para depois ter essa ideia investida por outro fundo é o pior que pode acontecer à um VC. O fundo precisa se proteger dessa possibilidade…

    Abs,

    Guilherme M L Cohn
    fundohorizonti.com.br

  5. Olá Maurílio!

    Sim, isso acontece, e muito. Muitas vezes, o comitê de avaliação condiciona a aprovação da empresa a mudanças no público-alvo, melhor análise de concorrentes, alterações no modelo de negócios, etc.

    Por isso, sempre enviamos às empresas avaliadas um relatório com todos os highlights da apresentação. A ideia é que o empreendedor enxergue o que foi mal avaliado, e reapresente o projeto. Vemos isso com “ótimos olhos”!

    Essa dinâmica (reprovação seguida de reapresentação, e posterior aprovação) aconteceu com mais da metade das empresas que estamos cogitando investimento!

    Abs,

    Guilherme M L Cohn
    fundohorizonti.com.br

  6. Concordo plenamente!

    Os últimos meses foram recheados de cases de investimento em startups brasileiras, o que dá mais crédito ao mercado de capital de risco com um todo!

    Acho que estamos passando por uma mudança conceitual grande a esse respeito! Daqui a pouco, serão muitas as startups investidas, e muitos os cases de sucesso.

    Abs,

    Guilherme M L Cohn
    fundohorizonti.com.br

  7. Olá Diego,

    Sobre o NDA, podemos encontrar investidores que assinam o termo, e o contrário também. Em nossas pesquisas, chegamos a resultados diferentes dos seus: a maioria dos investidores sim assina NDA, mas não em momento inicial da análise.

    Sobre o termo de exclusividade, não acho que prejudica o empreendedor. Acredito que antes de submeter material a um Fundo, é necessário estudar um pouco as opções. Há diversos fundos de capital de risco, cada um com uma característica diferente que irá trazer vantagens diferentes para a empresa.

    Se um fundo está analisando a sua ideia, uma quantidade enorme de tempo é alocada nisso. Modelar todo um plano de negócios, chegar à uma valuation, assinar os primeiros termos, para depois ter essa ideia investida por outro fundo é o pior que pode acontecer à um VC. O fundo precisa se proteger dessa possibilidade…

    Abs,

    Guilherme M L Cohn
    fundohorizonti.com.br

  8. Olá Maurílio!

    Sim, isso acontece, e muito. Muitas vezes, o comitê de avaliação condiciona a aprovação da empresa a mudanças no público-alvo, melhor análise de concorrentes, alterações no modelo de negócios, etc.

    Por isso, sempre enviamos às empresas avaliadas um relatório com todos os highlights da apresentação. A ideia é que o empreendedor enxergue o que foi mal avaliado, e reapresente o projeto. Vemos isso com “ótimos olhos”!

    Essa dinâmica (reprovação seguida de reapresentação, e posterior aprovação) aconteceu com mais da metade das empresas que estamos cogitando investimento!

    Abs,

    Guilherme M L Cohn
    fundohorizonti.com.br

  9. Concordo plenamente!

    Os últimos meses foram recheados de cases de investimento em startups brasileiras, o que dá mais crédito ao mercado de capital de risco com um todo!

    Acho que estamos passando por uma mudança conceitual grande a esse respeito! Daqui a pouco, serão muitas as startups investidas, e muitos os cases de sucesso.

    Abs,

    Guilherme M L Cohn
    fundohorizonti.com.br

  10. “Propriedade Intelectual – é um contrato assinado entre a Empresa e seus colaboradores. Motivo: garante que tudo que foi produzido na Empresa é da Empresa, e não dos seus desenvolvedores.”

    Então, startups que desenvolvam sistemas de software livre e de código-fonte aberto estariam automaticamente excluídas por investidores, uma vez que, em última instância, o código pertence aos desenvolvedores, não à empresa.

    Se isto for assim, serial excluídos diversos empreendimentos inovadores apenas porque usam um paradigma de desenvolvimento aberto, sem levar-se em conta os benefícios que fluem deste mesmo paradigma para o produto desenvolvido, como por exemplo código mais claro, limpo e com menos erros.

    Mostraria também desconhecimento por parte dos investidores a respeito da rentabilidade que projetos de software livre e de código-fonte aberto podem devolver, já que software livre não significa necessariamente software grátis.

  11. “Propriedade Intelectual – é um contrato assinado entre a Empresa e seus colaboradores. Motivo: garante que tudo que foi produzido na Empresa é da Empresa, e não dos seus desenvolvedores.”

    Então, startups que desenvolvam sistemas de software livre e de código-fonte aberto estariam automaticamente excluídas por investidores, uma vez que, em última instância, o código pertence aos desenvolvedores, não à empresa.

    Se isto for assim, serial excluídos diversos empreendimentos inovadores apenas porque usam um paradigma de desenvolvimento aberto, sem levar-se em conta os benefícios que fluem deste mesmo paradigma para o produto desenvolvido, como por exemplo código mais claro, limpo e com menos erros.

    Mostraria também desconhecimento por parte dos investidores a respeito da rentabilidade que projetos de software livre e de código-fonte aberto podem devolver, já que software livre não significa necessariamente software grátis.

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