Mint: de Zero a 170 em Três Anos

Recentemente, o Mint – serviço online de gerenciamento financeiro pessoal largamente usado nos EUA – foi vendido para a Intuit. O comprador é empresa que publica o Quicken, que por sua vez é o software-à-moda-antiga mais usado por lá para a mesma finalidade. Valor da venda: US$ 170 milhões de dólares. E tudo isso em três anos de existência. Em uma palestra recente, o CEO do Mint, Aaron Patzer, contou um pouco da história do Mint. A apresentação é interessante para entender o quão profissional é o mercado americano de startups e ensina algumas lições valiosas para os empreendedores de qualquer parte do mundo.

Primeira Lição: É Tudo Dinheiro

Para quem gosta de tecnologia, esse talvez seja o maior choque. Dinheiro não é só um pré-requisito, e nem mesmo o objetivo final. Tudo em um plano de negócio gira em torno de dinheiro. Você tem que ser capaz de converter em números tudo que diz respeito ao plano. Quanto custa cada item, cada pessoa, cada mês de operação. Na outra ponta, quanto vale o seu negócio, a cada momento. Até mesmo o cliente se converte no final das contas em um número, que são suas vendas.

É fundamental entender que a negociação com um investidor ou executivo profissional irá girar em torno disso: dinheiro. Não interessa o quão sofisticada é a sua tecnologia. O que interessa é se você tem um negócio viável na mão, e a única forma de analisar friamente um negócio é através do dinheiro.

Finalmente, é essencial manter ao longo de todo o processo uma visão clara do fluxo de caixa. É assim que se decide quanto se pode gastar, quando investir, e principalmente – quando correr atrás de dinheiro novo.

Segunda Lição: Apresente um Produto

Agora que você já entendeu que em primeiro lugar e antes de tudo vem o dinheiro, não se esqueça de que você precisa ter um produto para apresentar. No caso do Mint, o produto surgiu de uma necessidade percebida pelo fundador da empresa. Partindo dessa idéia, o foco da primeira fase foi implementar e entregar este produto. Ajudou muito o fato de o fundador ter conhecimento sólido tanto da parte técnica, como da parte contábil. Mas o Mint investiu em uma equipe técnica significativa, para ter um bom produto na mão. E esse é o ponto: uma vez que você saiba o que quer fazer, é importante focar na execução, implementar e entregar o produto. E para isso é preciso ter competência técnica. Depois disso, é só seguir o plano.

Terceira Lição: Tenha um Plano

Mesmo para uma empresa que cresce extremamente rápido, como o Mint cresceu, é importante ter um plano claro em mente. O plano permite cruzar as duas dimensões fundamentais do negócio: a tecnologia e o dinheiro. A idéia é manter um olho no dinheiro o tempo todo, enquanto a tecnologia é construída.

O plano básico do Mint se dividiu em três fases: “garagem”, “capital semente” e “financiado”. Em cada uma das fases, o foco é um pouco diferente. A primeira fase se concentra em ter o produto (nossa segunda lição). Na segunda fase, o foco é implantar o modelo de negócio básico. E na terceira fase, a empresa se profissionaliza e se consolida. A disciplina com a qual o Mint executou essas fases é um exemplo claro de como um plano bem feito permite conduzir uma empresa no caminho do seu crescimento.

Lição Final: Não Existem Inimigos

Outra lição valiosa (que por sinal não consta da apresentação) vem da história do relacionamento entre o Mint e a Intuit. As empresas não tinham uma relação muito amistosa. O Mint surgiu em reação à complexidade do Quicken e vinha tomando mercado rapidamente, especialmente entre os usuários casuais. No começo do ano, a Intuit chegou a questionar legalmente a capacidade de crescimento do seu concorrente. Agora, com a compra, as empresas mais do que fazem as pazes. O Mint retorna o investimento dos capitalistas (estimado em US$ 31 milhões) e o Quicken ganha sangue novo para crescer.

É claro que comparar o mercado americano de startups com o mercado brasileiro é algo impensável, por absoluta falta de parâmetro. Porém, acredito que as lições valem em qualquer lugar do mundo – até mesmo no Brasil. É questão de saber aplicá-las.

0 responses to “Mint: de Zero a 170 em Três Anos

  1. Muito interessante esta abordagem sobre o planejamento startups. Mas fico pensando sobre este “Tudo em um plano de negócio gira em torno de dinheiro.”, precisamos lembrar que existem casos em que isto não se aplica necessariamente no inicio. Acho que os investidores de alguns dos sucessos recentes da web mundial não tinham uma visão de curto prazo sobre seus investimentos. O YouTube foi vendido sem ter um modelo de negócios funcional e o retorno foi grande para os investidores, sem falar em Facebook, Twitter e etc. Até mesmo o Google em seus primeiros dias não tinha um modelo de negócios muito bem definido. Estas podem ser apenas exceções, mas é importante lembra-los.

  2. Bom, eu acredito que existem outros valores não necessáriamente monetários, mas que o investidor tenta (mesmo que subjetivamente) converter em cash. Exemplo: Quando se diz que tem uma base de X milhões de usuários, o primeiro cálculo que vem a mente do investidor é o lucro por ano por usuário que poderia ser feito no longo prazo, ou mesmo tentar estimar qual o valor aquela comunidade teria para outro player.
    Do ponto de vista do empreendedor, é bem comum, (e eventualmente correto) focar em base de usuários, penetração de mercado antes de achar o modelo de negócios.

  3. Sim, acho que estes valores não monetários devem ser levados em conta nos exemplos que eu mencionei. Mas em se tratando de uma startup em fase inicial o potencial de gerar estes valores não necessáriamente monetários deveria ser levado em conta em qualquer avaliação razoável. O problema é justamente a “conversão” dessa medida para dinheiro no momento em que o próprio modelo que tornaria esta conversão possível ainda não foi encontrado.

  4. Isso é interessante. É por isso que geralmente valuations em fases de angel investing, e seed são tão fantasiosas e subjetivas. O investidor tem que usar seu instinto animal, sua intuição na decisão de apostar ou não. Quando se chega ao nível de VC, começa uma preocupação grande em converter valores intangíveis em valores financeiros. Claro que aparecem fenômenos como o Twitter, mas neste caso é excessão, e não regra.

  5. Edmar, tudo gira em torno de dinheiro porque é a única métrica possível. E mesmo entre as empresas que você citou, a questão sempre passou pelo dinheiro. O Google é um exemplo interessantíssimo. A opção de construir o sistema de busca usando máquinas montadas ao invés de máquinas caríssimas e equipamentos de storage foi feita com base em uma conta financeira simples. Outro ponto da história do Google foi a decisão de segurar por um longo tempo o IPO da empresa, por conta da situação de mercado após o estouro da bolha em 2001/2002. Neste momento a empresa demonstrou uma fantástica capacidade de gerenciar a taxa de queima de capital (o famoso “burn rate”). Existem apresentações antigas do Google, que podem ser encontradas na Internet, que mostram que a empresa se preocupava desde o começo com itens mínimos de custo – por exemplo, quantos watts (e por consequência, quanto dinheiro) custa uma consulta. Como se vê, sempre convertendo tudo em dinheiro.

    Com o Twitter ocorreu uma outra história interessante envolvendo dinheiro. Para quem não sabe, o Twitter é fruto de um “side project” de um outro projeto muito maior, que estava prestes a ser cancelado por falta de fundos para desenvolvimento. A equipe teve um tempo curto para pensar em outro projeto viável que pudesse dar algum retorno em um prazo mais curto. A decisão foi focar no produto que veio a se tornar o Twitter, que foi idéia de um dos engenheiros e que já vinha sendo prototipada internamente.

    Finalmente, lembre-se de que a avaliação do potencial futuro de um negócio sempre passa por uma análise de risco. O investidor avalia o potencial de negócio (ex: O mercado de vídeo na Internet vai valer X bilhões daqui a alguns anos; assim, YouTube tem potencial de atingir uma fatia Y do mercado e de se tornar uma empresa de Z bilhões de dólares) e o risco (ex: o YouTube custa W para ser mantido). É em cima disso que ele toma a decisão, independente de já ter um modelo de negócio estruturado.

  6. “Você tem que ser capaz de converter em números tudo que diz respeito ao plano.”

    O problema maior está nesta conversão, como saber o quanto cada usuário pode valer quando você ainda não tem usuários. Depois que o Twitter já tem milhões de usuários é uma coisa… Se estivesse em fase de plano de negócios e fosse analisado “transformando tudo em dinheiro” não receberia investimento por que este raciocínio só se aplica quando existe alguma coisa para ser “transformada em dinheiro” seja audiência, usuários, conteúdo, etc.

    Nos casos que eu citei “transformar em dinheiro” no inicio destas empresas resultaria apenas em especulação. Lembrando claro que estas empresas são exceção a regra. Mas são justamente elas que trazem o maior retorno sobre o investimento. O exemplo que você deu sobre o Google ilustra que foi possível converter em valor monetários os custos da operação, que é um dado muito importante. Mas para entender o valor dos recursos não monetários é preciso um exercício de raciocínio muito mais complexo nesta fase para entender as possibilidades futuras de um negócio que ai sim poderiam ser convertidas em valor monetário.

    É impossível prever o valor monetário que pode ser extraido do volume de usuários do Twitter ou do fluxo de dados. Até mesmo por que valores colaterais podem surgir do serviço sem o planejamento prévio por parte dos fundadores. Os criadores do Twitter não imaginavam que o serviço seria usado para alertas em tempo real sobre praticamente qualquer assunto ( como um dos próprios disse em visita recente ao Brasil). Apostaram que o serviço poderia se tornar algo interessante, apostaram certo. Qualquer tentativa de “transformar em dinheiro” um negócio destes em fase de plano de negócios é pura especulação, nem todas as startups se prestam a esta abordagem. Para quem tem um martelo tudo parece um prego até acertar o dedo de alguém.

  7. Ai meu dedo.
    Vamos lá. Ainda que de maneira superficial, em algum momento o valor de x milhões de usuários de uma rede social como o twitter teve um valor estimado em 1 bilhão de dólares. Vale? Não sei, mas acredito que existe um valor enorme no serviço que a empresa presta.
    Nos momentos iniciais, ou mais precisamente no momento em que o cara saiu da mesa dele com um protótipo de papel, aquilo ali não tinha valor algum. Não tem tecnologia inovadora por trás, não tem segredo para ser copiado. E quem investiu cedo ali, apostou na capacidade da empresa de criar uma comunidade (algo que leva a um nível de subjetividade ainda mais astronômico.). A empresa conseguiu e tem uma comunidade forte e com certeza tem um alto valor.

    Meu ponto é o seguinte. Colocar tudo na ponta do lápis cedo demais pode inviabilizar alguns projetos que podem vir a ter um valor enorme. ( Exemplo: Youtube, Twitter, etc..) São produtos de valor intangível, aparentemente “low tech” e com modelos de negócios deficitários.

    Mas uma vez que você já possui algum ativo qualquer, tecnologia, comunidade, clientes, não colocar na ponta do lápis (ainda que de maneira estimada) é maluquice.

  8. Este é o ponto. Uma vez que você já tenha algum ativo é claro que você deve extrair o máximo de informação financeira. Fazer isto prematuramente pode inviabilizar idéias promissoras. Sendo assim nós temos duas fazes que merecem uma atenção diferente cada uma.

  9. Edmar, é bem nessa linha mesmo: tem hora pra inovar e conseguir audiência, e tem outra hora pra buscar receita e também investimento. Mas repare bem nos dois cenários… o nosso, e o que você lê nos blogs lá de fora.

    Nos EUA, a competição dos investidores por startups é muito grande. Eles procuram constantemente startups que inovem, busquem um nicho desatendido ou apresentem audiência consistente (e caso eles não cheguem até elas, elas vão até eles). Quando acham, aportam uma series A. Se a startup cresce ainda mais (mesmo sem receita), o próprio investidor que financiou o 1.o aporte irá procurar investidores para o 2.o aporte e garantir o giro do negócio que ele acredita ser viável. Assim, o mercado americano aceita e acolhe empresas como Twitter e Youtube – early-stage e sem previsão consistente de receita.

    O Brasil está alguns passos atrás, porque o mercado de VC evolui de cima para baixo: analistas ou sócios de grandes fundos de private equity decidem sair e montar seu próprio fundo de VC. O mercado esquenta um pouco em cima, e após um tempo os analistas de VC decidem sair e montar seus próprios fundos de seed capital. Em paralelo a isso, executivos experientes (e alguns aposentados) decidem voltar à ativa e criar seus fundos de angels.

    Nesse mercado tupiniquim nascente, ainda é grande o risco para os que trabalham com early-stage (angels e seed funds, que seriam os que você esperaria investirem em idéias nascentes sem receita). Por isso, eles estão primeiro procurando empresas já rentáveis ou que tenham previsão de receita, pra uma saída maior que 5 ou 10 milhões em 4 ou 5 anos…

    Nessa hora, o ponto do Carlos vale: no Brasil, temos somente o mercado do dinheiro. Mas o empreendedor vai amadurecer, e veremos boas saídas com pequenas startups no futuro próximo… então talvez chegaremos no ponto que você espera: investimento em startups que são simplesmente boas idéias.

    Abraço,

    — Yuri

  10. Interessante esta visão do mercado nacional. Espero mesmo que uma leva de startups com modelo de negócio sólido tenha sucesso no médio prazo até mesmo para acabar com um certo ar de “suspeita” que ainda paira sobre startups aqui no Brasil. Assim poderemos quem sabe em um segundo momento ver idéias mais arriscadas e potencialmente mais disruptivas no cenário nacional.

  11. É viável para uma startup ainda sem modelo de negócios buscar backing lá fora?
    O Power.com foi um case de investimento em uma startup brasileira e até hoje eles ainda não mostraram um modelo de negócios convincente (não para mim!).

    1. Muito bem lembrado Diego, o Brasil é tem um mercado de web grande e crescente o que poderia levar a idéias mais arriscadas serem tentadas aqui. O http://meme.yahoo.com/ do Yahoo foi testado aqui no Brasil primeiro e se não me engano tem equipe brasileira.

  12. Edmar, quando digo que “tudo é dinheiro”, não quero dizer dinheiro real em espécie. E também não estou pensando em faturamento. Quero dizer que tudo tem que ser convertido para um padrão de referência em dinheiro.

    Na apresentação do Aaron (referenciada no artigo e depois pelo Diego mais acima), logo nos primeiros slides, ele já mostra quanto custa cada fase do desenvolvimento. Depois ele mostra quanto custa cada membro da equipe, quais são os números mágicos de custo total por cabeça, etc. E isso deve estar claro na cabeça do empreendedor antes mesmo de ele ter uma idéia real de quanto o negócio vai valer. Existe sempre uma aposta. Vejamos o caso do Twitter.

    Afirmar que no caso do Twitter era “impossível prever o valor monetário …” reflete um tipo de pensamento que é muito comum, e que é prejudicial para quem está estruturando uma idéia. É sempre possível prever dentro de uma certa margem de risco, e tanto a potencial futuro como o risco são calculados pelo seu valor financeiro. Em um certo momento, o pessoal do Twitter fez uma conta: estamos gastando X por mês para desenvolver manter o produto, temos Y de capital, então podemos manter por Z meses, e o sistema valerá pelo menos NxY, então vale a pena continuar. Se perdermos, nossa perda máxima será de Y (capital empregado), que é um risco aceitável.

    Esse tipo de mentalidade ainda precisa ser desenvolvida no Brasil, e não tem nada a ver com a disponibilidade financeira de capital. Tem a ver com a postura das pessoas. Como “povo”, somos conservadores e avessos ao risco. Mas isso felizmente está mudando.

  13. “Em um certo momento, o pessoal do Twitter fez uma conta …”

    Como eu já disse antes, existe um momento para fazer isto e definitivamente no caso do Twitter este não era a fase inicial do projeto quando ainda era uma idéia.

    Você diz “estamos gastando X por mês” e o “o sistema valerá pelo menos NxY”. Eu repito que não é possível fazer este calculo para uma idéia, você tem que ter algum parâmetro para o calculo.

    Este “o sistema valerá pelo menos …” não pode ser calculado satisfatoriamente antes que este sistema interaja no mercado, no caso do Twitter (lembrando que estamos avaliando o momento de IDÉIA) avaliaríamos apenas o valor das horas que seriam necessárias pra desenvolver o produto inicial o que definitivamente não captura o valor deste projeto.

    Dizer que é PREVER o valor monetário de uma startup em faze inicial de idéia, é o mesmo que dizer que é possível olhar a apresentação de um cantor iniciante e “calcular” o número que CDs que ele vai vender no futuro.Se os estúdios resolvessem medir o valor de cada cantor pelo número de horas que ele treinou… Eles iriam a falência.

    É claro que no mesmo caso dos cantores caso eles já estejam vendendo CDs teríamos um parâmetro entender como eles poderiam evoluir com mais precisão. Ou seja cada fase do projeto
    “idéia” e “execução” merecem tratamentos distintos de análise.

    Se os criadores do Twitter tivessem colocado esta metodologia e avaliassem apenas o valor monetário da execução de sua idéia nós não veriamos o Twitter hoje ou o Facebook ou o …

    Avaliar idéias é difícil. Se os empreendedores destes casos acreditassem no potencial destas idéias ou apenas decidiram fazer “por que era divertido” e não por que uma conta mostrou que poderia ser um negócio viável ao menos não nesta fase INICIAL. ( crianças, estamos falando de um caso bem específico aqui OK, por favor não abram um negócio sem fazer o MÁXIMO de contas possível em TODAS as fases ).

    Não existe formula para avaliar uma idéias, é preciso experiência, inteligência e uma boa dose de sorte.

  14. … “existe um momento para fazer isto e definitivamente no caso do Twitter este não era a fase inicial do projeto quando ainda era uma idéia”

    Com certeza, o momento de começar as contas é quando ainda é uma idéia. Essa pergunta foi feita no Twitter, isso pode se visto nas matérias que saíram sobre a história do projeto. Eles sabiam exatamente quanto dinheiro tinham para investir e se decidiram continuar, é porque avaliaram que o produo valeria mais do que o valor investido. É possível que ninguém soubesse o quanto. Mas era mais do que o valor investido, e isso é suficiente neste momento,

    Assim, o ponto não é ser “monetarista” e decidir que só vale a pena se der X de dinheiro daqui a três meses. É acreditar que o produto vale *pelo menos* o esforço de desenvolvimento que está sendo empreendido. Se o investimento retornar uma taxa maior do que o mercado financeiro paga de juros, o investidor sairá no lucro.

    A questão é que nos primeiros meses, o dinheiro que se gasta é relativamente pouco. Muitas vezes, é o próprio programador que se envolve nessa fase, desenvolvendo “por conta”. Mesmo assim, ele TEM que fazer a conta. Mesmo que ele ache que está se envolvendo por “custo zero”, existe um custo de oportunidade, onde ele poderia estar fazendo outra coisa, seja seu emprego, um bico, estudando, se dedicando à família, etc.

    Uma das grandes razões de fracasso dos negócios é justamente a falta desse tipo de perspectiva, especialmente quando o empreendedor também é o “engenheiro chefe”. Ele se entusiasma com a idéia e pensa que quando estiver mais bem formatada, ele irá criar um plano de negócio. Frequentemente o projeto é abandonado, por falta de perspectiva. Se o autor tivesse em mente desde o primeiro dia qual seria a aposta – quanto ele ACHA que o negócio irá valer – talvez tivesse mais energia e dedicação e conseguisse levar o projeto até o final.

    Novamente, um dos problemas é que isso não faz parte da nossa cultura. Além do que eu já comentei (sobre conservadorismo e aversão ao risco) temos vergonha de pensar em dinheiro. Pois não devíamos. Afinal – e esse é o tema da discussão – no fim das contas tudo é dinheiro…

  15. Concordo que cada fase merece uma análise distinta. Porém, não podemos deixar de estimar o custo e retorno esperado. Por exemplo, você pode não saber quantos usuários seu produto terá, mas deve ser capaz de estimar qual o mínimo para o seu negócio se sustentar ou atingir o patamar necessário para mudar de fase. Isso te dará uma ideia do risco do seu negócio. Por exemplo, se para ele ficar viável é necessário conseguir X usuários ativos e isso parece irreal, o risco do seu projeto é alto. Concordo com o Carlos de que não temos a cultura de avaliar riscos e custos. Muitas vezes vamos na intuição e totalmente no escuro. E com o decorrer do projeto o empreendedor percebe que não era bem assim e acaba abandonando-o. Projetos inovadores são sempre mais difíceis de prever o risco, mas mesmo que seja apenas uma estimativa, isto deve se feito, mantendo-se as peculiaridades de cada fase.

  16. Imaginem essa situação: um cara de 21 anos tem uma idéia e começa a codificar em Ruby on Rails nas horas vagas. Depois de 10 noites em casa, ele tem um protótipo pronto que serve pra mostrar CLARAMENTE a funcionalidade de um produto inovador.

    Acho que esse é o ponto do Edmar. Não precisa estimar audiência. Não precisa calcular o custo. Use suas horas vagas, e a intuição pra dizer se você está ou não no caminho certo. Pode ser que você cresça, mas pode ser que não.

    Só que nesse modus operandi, existe um grande risco de se começar 5 ou 10 aplicações e não terminar nenhuma… ter vários mini-produtos com 20 usuários e não crescer de verdade com nenhum deles. É nessa hora que o reality-check colocado pelo Carlos tem que aparecer.

  17. Caindo de para-quedas pra botar lenha na fogueira…

    FAÇA PORQUE É LEGAL:
    A visão de “faça porque é legal” MUITO importante. Construir algo que resolve o SEU problema, acima de tudo, é uma boa receita por um motivo claro: lhe dá muita RESILIÊNCIA. Se você tem uma pulga atrás da orelha, vai querer matá-la, não importa se querem investir ou não no negócio, se você ficará bilionário ou não, famoso ou não, etc… Com TI então, melhor ainda pois é fácil (basicamente custa algumas madrugadas e RedBulls).

    LERO-LERO:
    MAS, acho que também tem muito blá-blá-blá nas histórias das start-ups. Duvido que o Mark “Facebook” não pensou na grana.. ele é claramente ambicioso. Os caras do Google queriam ganhar grana logo cedo vendendo seu sistema. E por aí vai… Depois que tá tudo bonitinho é fácil escrever uma história inspiradora… “éramos dois caras na garagem hackeando sem ligar para o sistema capitalista”… bull-shit.

    AMNÉSIA:
    Só lembramos os sucessos… quantas idéias chinfrins, sem modelos de negócios, torraram milhões de dólares na teoria do “build it and they will come”? Como disseram, Twitter é exceção à regra… para cada um tem centenas que viram pó.

    EMPREENDEDOR PARALELO:
    Aí entra teoria do portfolio, etc. O investidor sabe do risco e tenta mitigar com múltiplos investimentos. Mas e o empreendedor? Pode ter um portfolio de start-ups também? Será que investiriam em empreendedores PARALELOS e não só SERIAIS? Infelizmente, acho difícil.

    FOCO:
    Os investidores querem FOCO do empreendedor. Que ele durma, sonhe, respire, viva a start-up. Se for pra dedicar tanto suor, tempo e grana para uma única idéia eu volto ao meu primeiro ponto: faça porque quer resolver o SEU problema ou então, se só quiser ganhar dinheiro, trabalhe com alguma idéia menos nebulosa (modelo de negócios sólido). Querer ganhar dinheiro inventando o próximo Twitter é, no mínimo, loucura. Tente inventar sim, mas faça no seu tempo livre.

  18. Eu também não… mas duvido que eu tenha inventado. 🙂
    Mas estou tentando provar (convencer) de que é possível (eu tenho mais o perfil paralelo que o focado… alguns chamariam de Déficit de Atenção ou algo do tipo….rs).

  19. Entendi o ponto de vista do Edmar. Mas como fazer para decidir entre as varias ideias que se tem? É a questão de risco de oportunidade. E o empreendedor paralelo (adorei esta definição) tem sempre de optar por 2 ou 3 das suas melhores ideias. A dúvida, mesmo pra ele é: quais são as melhores? O que eu tento fazer é quantiicar “por alto” cada uma das ideias e balancear o grau de dificuldade para implementação e a possibilidade de retorno. Sem um capital semente, o mais viável é focar em ideias que possam sair do papel com meu próprio esforço. Bem a ideia do “getting real”.

  20. Deixei passar esta frase na resposta anterior:

    “Eu repito que não é possível fazer este calculo para uma idéia, você tem que ter algum parâmetro para o calculo.”

    Para não polemizar mais mais ainda, “let´s agree on disagreeing” 🙂

  21. Yuri, você praticamente matou a charada. Existem realmente duas visões diferentes, sendo que nenhuma das duas é completa.

    Se você é um “engenheiro”, sofre com a pressão para realizar as idéias. O mais importante é tirar a idéia da cabeça. É um parto (quase literal). Ela precisa sair e ter vida própria, senão te enlouquece.

    Se você é um “investidor imediatista”, precisa colocar seu dinheiro para trabalhar. E aí, você coloca onde dá retorno – e ponto final.

    No entanto, se você se aproxima do meio termo – sendo um “investidor realista”, ou um “engenheiro com visão de negócios” – você consegue aliar o melhor de cada lado. É possível apostar em novas idéias, e desenvolver produtos realmente inovadores – mas é preciso ter um pé em cada mundo.

    Veja que para ser capaz de realizar idéias realmente transformadoras, é preciso ter essa capacidade de pensar em dinheiro. A história está cheia de inventores brilhantes, os “Nicolas Tesla” da vida, geniais mas incapazes de criar empreendimentos sustentáveis a longo prazo. É por isso que eu acredito que as idéias realmente transformadoras surgem daí – de gente capaz de sonhar, de pensar longe, de inovar, mas que ao mesmo tempo é capaz de VIABILIZAR o seu sonho.

  22. Honestamente – e até por experiência própria – acredito que a maioria dos empreendedores paralelos acaba não realizando nada. As poucas exceções são isso mesmo – exceções. São pessoas para que tem uma capacidade de gestão e de delegação absolutamente diferenciada. Para a maioria das pessoas, isso não funciona, ou pelo menos não funciona tão bem como funcionaria se eu focasse em alguma coisa específica.

  23. John, entendo seu ponto de vista, mas veja que eles não começaram com 31 milhões. Esse dinheiro é um total de investimentos que foram feitos ao longo do tempo e que só foram integralizados na terceira fase do processo. Acredito que o título se mantém nesse caso.

  24. O que o Yuri colocou é um ponto muito interessante: de que o VC brasileiro evolui de cima para baixo. Mas o mercado norte americano pode fazer o contrário com vários fundos de seed capital, que surgem inclusive de dentro de empresas privadas ou mesmo ex-executivos em suas “partners” de esquinas, porque tem muita $ para gastar, com fundos de pensão bilionários. E mais, têm muitos talentos, ou mesmo que não sejam talentos, mas estudantes, desenvolvedores, que possuem cabeças empreendedoras, seriais ou paralelas, e que nas horas vagas conseguem alguma coisa depois de vários brainstormings com amigos e/ou professores inclusive. No Brasil não temos isso ainda…

    “veremos boas saídas com pequenas startups no futuro próximo… então talvez chegaremos no ponto que você espera: investimento em startups que são simplesmente boas idéias.”– Yuri

    O governo não ajuda muito também para isso. Agora com o IOF comendo uma boa parte dos FIPs, retarda esse cenário, que estão arrumando manobras para investimentos diretos sem passar por esses. Caindo um pouco na cadeia, para atingir fundos de seed não demora muito, além desses investidores de PE e VC muitas vezes serem os mesmos no país.

  25. Pessoal,
    Fiquei impressionado com o alto nível das discussões aqui e fico realmente feliz em ver que existe esse espaço para debate sobre startups no Brasil.

    Especificamente sobre a questão do modelo de negócios/estágio inicial, faço minhas as palavras do Gian Carlo.

    Acredito muito que o empreendedor precisa conhecer os fundamentos básicos sobre gestão/mkt/estratégia, etc. Porém, no começo, ele precisa fazer “Porque é legal!”.

    Eu pessoalmente saí de uma carreira em consultoria estratégica para empreender e foi a melhor escolha que já fiz. Relatei isso em um dos primeiros artigos do Saia do Lugar: Empreender é mais legal.

    Logicamente o empreendedor não pode ser ingênuo e esperar seu produto genial começar a rodar antes de pensar em métricas, indicadores de sucesso e no modelo de negócios. Mas defendo que chutar números e fazer projeções financeiras enquanto o produto não foi lançado é inútil. Meu lema é: tenha seu modelo desde o começo, mas só coloque números nele quando tiver algo para apresentar.

    Só não acredito muito em ser um empreendedor paralelo, sou fã incondicional do poder do foco. Levar uma ideia pra frente já é difícil o suficiente, quanto mais várias ideias.

    Abraços!
    Millor

  26. Concordo que há sempre algo relevante a ser quantificado em uma startup ou produto, ainda que em suas etapas iniciais de desenvolvimento. Seu potencial como veículo de mídia é a mais simples.

    No caso do twitter, lembro de ler algo sobre a empresa valer 19 milhões de dólares sem apresentar um modelo claro de fonte de renda. Faz tempo.

    Mesmo nesta época o twitter demonstrava crescimento consistente entre formadores de opinião e uma capacidade ímpar de gerar mídia espontânea. São métricas que podem ser convertidas para dinheiro (ou estimativas de lucro a médio/longo prazo).

    Sobre o Youtube, pesquisei outro dia e descobri dados interessantes. A tecnologia para o desenvolvimento estava aberta a todos, e o case do Fotolog.net indicava a demanda que logo se vialibizaria para vídeos. Todos nós inventamos o Youtube em conversas de bar. Mas os sócios fundadores montaram um plano de negócios, correram atrás de investimento e viabilizaram o crescimento inicial do site através de promoções que premiavam seus usuários (acho que era 1 ipod por dia, ou semana).

    Aos poucos trataram o terreno para o desenvolvimento de um produto que para muitos era precoce por limitações técnicas (banda principalmente). Criaram e mantiveram esta posição com um planejamento estratégico ousado e inteligente.

  27. É realmente difícil… negócio, para decolar, geralmente precisa ter um “dono”, alguém que puxa o carro e motiva quem mais estiver envolvido. Mas é necessário ter o perfil para isso.

    Acho que há pessoas com outra característica desejável de um empreendedor: criatividade aliada a visão de negócios. Quem é criativo geralmente é inquieto. Pessoas assim deveriam deixar de empreender? Acho que não… isso seria péssimo… Então como conciliar a vontade de empreender com a vontade de inovar e criar em muitas áreas distintas?

    Para mim, empreender paralelamente é colaborar com outros empreendedores em vários projetos, sem ser o “dono” de nenhum deles. Consigo contribuir com uma “faísca” de inovação sem precisar focar em um só negócio, já que isso provavelmente diminuiria a minha capacidade de enxergar novas oportunidades.

    Esse assunto rende um post por si só (em produção!). 🙂

  28. Estou “estudando” para escrever meu post sobre “empreendedores paralelos” e, como suspeitava, não inventei o termo (droga)! Tem bastante coisa online mostrando pontos positivos e negativos. Olha só que interessante o que o Fred Wilson coloca no blog dele (http://www.avc.com/a_vc/2006/10/the_parallel_en
    “It makes sense. Entrepreneurs realize that serial entrepreneurship means putting all their eggs in one basket. VCs get to leverage a portfolio effect and I think we'll see more entrepreneurs try to do the same.”
    Eita… Meu comentário foi na mosca! 😀 Estou animado para escrever meu post sobre o assunto.

  29. EDIT: Saiu o post finalmente! http://planoa.wordpress.com/2009/10/29/empreend
    ________________________

    Estou “estudando” para escrever meu post sobre “empreendedores paralelos” e, como suspeitava, não inventei o termo (droga)! Tem bastante coisa online mostrando pontos positivos e negativos. Olha só que interessante o que o Fred Wilson coloca no blog dele (http://www.avc.com/a_vc/2006/10/the_parallel_en
    “It makes sense. Entrepreneurs realize that serial entrepreneurship means putting all their eggs in one basket. VCs get to leverage a portfolio effect and I think we'll see more entrepreneurs try to do the same.”
    Eita… Meu comentário foi na mosca! 😀 Estou animado para escrever meu post sobre o assunto.

  30. EDIT: Saiu o post finalmente! http://planoa.wordpress.com/2009/10/29/empreend
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    Estou “estudando” para escrever meu post sobre “empreendedores paralelos” e, como suspeitava, não inventei o termo (droga)! Tem bastante coisa online mostrando pontos positivos e negativos. Olha só que interessante o que o Fred Wilson coloca no blog dele (http://www.avc.com/a_vc/2006/10/the_parallel_en
    “It makes sense. Entrepreneurs realize that serial entrepreneurship means putting all their eggs in one basket. VCs get to leverage a portfolio effect and I think we'll see more entrepreneurs try to do the same.”
    Eita… Meu comentário foi na mosca! 😀 Estou animado para escrever meu post sobre o assunto.

  31. O grande fato é que na terra do carnaval e futebol o empreendedor web é muito mais cauteloso, principalmente por ser mais difícil conseguir investimento para esse tipo de projeto, acredito que isso vem principalmente do fato que o brasileiro não leva ainda a internet tão a sério.

    Orkut já era um dos sites mais acessados no Brasil e ninguém falava em redes sociais, existem ainda blogs com quantidades gigantescas de tráfego e ainda assim perdem para aqueles famosos portais de cidades que não possuem nenhum conteúdo realmente relevante, mas conseguem mais seriedade.

    Levar a sério a internet, talvez esteja aí o ponto principal.

    Gian Carlo:
    “…Para mim, empreender paralelamente é colaborar com outros empreendedores em vários projetos, sem ser o “dono” de nenhum deles. Consigo contribuir com uma “faísca” de inovação sem precisar focar em um só negócio, já que isso provavelmente diminuiria a minha capacidade de enxergar novas oportunidades…”

    Tenho exatamente a mesma o mesmo perfil, acredito sim que é possível, e até saudável levando em conta claro o perfil de cada um.

  32. O grande fato é que na terra do carnaval e futebol o empreendedor web é muito mais cauteloso, principalmente por ser mais difícil conseguir investimento para esse tipo de projeto, acredito que isso vem principalmente do fato que o brasileiro não leva ainda a internet tão a sério.

    Orkut já era um dos sites mais acessados no Brasil e ninguém falava em redes sociais, existem ainda blogs com quantidades gigantescas de tráfego e ainda assim perdem para aqueles famosos portais de cidades que não possuem nenhum conteúdo realmente relevante, mas conseguem mais seriedade.

    Levar a sério a internet, talvez esteja aí o ponto principal.

    Gian Carlo:
    “…Para mim, empreender paralelamente é colaborar com outros empreendedores em vários projetos, sem ser o “dono” de nenhum deles. Consigo contribuir com uma “faísca” de inovação sem precisar focar em um só negócio, já que isso provavelmente diminuiria a minha capacidade de enxergar novas oportunidades…”

    Tenho exatamente a mesma o mesmo perfil, acredito sim que é possível, e até saudável levando em conta claro o perfil de cada um.

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