O que falta para a Web Móvel estourar no Brasil?

Hoje na Campus Party tivemos um painel bastante interessante sobre as possibilidades que a internet móvel abre, e resolvemos investigar os motivos e as barreiras que ainda seguram o avanço da web móvel no Brasil.

Onze anos se passaram desde que os portadores do Nokia Communicator 9000 tiveram acesso a Web Móvel pela primeira vez. Já naquela época, Internet no celular parecia uma ótima idéia, não fosse pela lentidão do serviço, os altos custos, e a falta de conteúdo. Mesmo se você tivesse um destes blocos de 400 gramas e contratasse os melhores serviços de internet para celular, ainda assim você teria muito pouca utilidade para sua internet móvel.

Os tempos mudaram. Hoje podemos colocar a mão no bolso, sacar nosso celular, e lá estão nossas apps favoritas. Gmail, Twitter, Internet Banking, praticamente todos os portais de notícias estão lá, disponíveis pra você usar sempre que quiser, quando quiser, de onde quiser, certo?

Não exatamente… Ainda existem diversas barreiras a serem vencidas até que consigamos de fato explorar todo o potencial que a Web Móvel possui. No Brasil, algumas destas barreiras são ainda maiores do que para os usuários de países mais desenvolvidos.

Vamos dar uma olhada em alguns aspectos que estão diretamente relacionados com o sucesso da Web Móvel aqui no Brasil.

Cultura

Um dos principais fatores críticos de sucesso de qualquer tecnologia é a necessidade ou desejo do seu público alvo em usá-la. Com a Web Móvel não é diferente. O ponto chave aqui é que a Web Móvel na verdade não é uma tecnologia disruptiva ou inovadora, trata-se simplesmente de mais uma forma de acessar suas informações na Internet.

Mas que tipo de informação as pessoas querem acessar com a Web Móvel? Dados levantados pela AdMob mostram que as redes sociais são as maiores geradoras de tráfego na Web Móvel em todo o mundo, e o público brasileiro é reconhecido mundialmente pela grande adoção de redes sociais, como mostra um relatório da Nielsen Online, divulgado no primeiro semestre de 2009.

De acordo com o relatório, 80% dos internautas brasileiros visitaram blogs e redes sociais no ano de 2008. Este percentual é maior do que em todos os outros países. Se o Brasil seguir o mesmo padrão do resto do mundo, as redes sociais podem ser um fator determinante para o boom da Web Móvel por aqui. O Twitter já comprova este potencial, pois o Brasileiro é o segundo país em número do de usuários do Twitter no mundo.

Outros números indicam que o brasileiro está cada vez mais dependente do celular e isto afeta a disseminação de qualquer tecnologia móvel. Dados do IBGE de 2007, mostram que o número de assinantes de telefones fixos no Brasil está praticamente estagnado em torno de 40 milhões, enquanto o de celulares já superou os 160 milhões.

O Distrito Federal, o Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e São Paulo já ultrapassaram a média de um celular por pessoa.

Tudo isto nos mostra o grande potencial da Web Móvel no país, no entanto, para conectar essa imensa base de usuários até seus sites e serviços favoritos na internet, ainda existe um caminho tortuoso pela frente.

Aparelhos

Para que alguém use a Web Móvel é necessário existir uma boa experiência de usuário. Ninguém quer ficar navegando em redes sociais, acessando email, e lendo notícias em um celular com a tela minúscula, com um modem GPRS lento, e o pior, um browser que não suporta full html e que vai limitar ainda mais os sites que você consegue visualizar. A motivação para que alguém faça alguma destas atividades sem um celular “high-end” é praticamente nula.

Não é a toa que os dados da AdMob, mostram que iPhones e os aparelhos com Android são os principais responsáveis pelo tráfego na web móvel em todo o mundo. O telefone da Apple lidera com 40% do tráfego e os aparelhos com o SO do Google mantém outros 7%. Se levarmos em consideração que a Apple possui 1% do mercado de celulares no Brasil (dados do segundo semestre de 2009, de acordo com a Gartner), e o Android, recém-chegado no país, ainda possui números praticamente inexpressivos, então podemos ter uma idéia do quanto ainda falta para termos um tráfego considerável de Web Móvel.

Esta é uma das principais barreiras devido principalmente ao preço em que os bons smartphones chegam ao Brasil. Se você quer ser um “early adopter”, esteja preparado para pagar em um celular o preço de um notebook.

Serviços

Com um celular de última geração na mão resta a você encontrar um serviço de qualidade para acessar a Web Móvel. E isto tem sido a parte difícil. Apesar dos planos 3G das operadoras estarem cada vez mais acessíveis, variando a partir de R$ 59,90, a qualidade da conexão tem deixado muitos usuários decepcionados. As operadoras também já estão investindo em serviços de 3G pré-pagos, visando cair no gosto do usuário de celulares de cartão.

O índice de reclamações dos serviços de 3G tem subido em proporções gigantescas e já representa mais de 30% das reclamações nas operadoras. No site Reclame Aqui já existem centenas de clientes insatisfeitos com o serviço. Se considerarmos os 5 milhões de usuários 3G e 160 milhões de usuários de celular, este percentual de reclamações torna-se um número catastrófico.

A qualidade e o preço dos serviços serão determinantes para sabermos quando a Web Móvel poderá decolar. Mesmo que você possua o melhor aparelho, você ainda estará nas mãos das operadoras.

Aplicativos

O desenvolvimento de apps nacionais não parece acompanhar o crescimento acelerado do número de smartphones no país. Para se ter uma idéia, se utilizarmos a plataforma do iPhone como referência, existem mais de 70.000 apps na App Store, e pouco mais de 20 delas são brasileiras (você pode ver uma lista aqui). A carência de apps brasileiros é uma característica presente não somente na plataforma do iPhone. Ainda não temos notícia de uma aplicação nacional, para Android, que esteja sendo vendida com êxito no Android Market ou através de qualquer outra plataforma de distribuição. Empresas brasileiras já estão fazendo avanços nesta direção, mas ainda existe um longo caminho a ser percorrido.

Outras plataformas, como .NET e JME também possuem seus aplicativos, no entanto, com exceção dos jogos, a maioria das apps está vinculada a um serviço principal, e acabam servindo apenas como uma nova forma de acesso aquele serviço, como é o caso dos mobile brokers e mobile banking.

A escassez de apps nacionais acaba nos levando a uma pergunta: Será que o aumento de aplicações móveis nacionais seria capaz de alavancar a Web Móvel no país, ou apenas a melhoria da qualidade e disponibilidade dos serviços de internet móvel seria capaz de fazer isto?

Conclusão

Apesar das barreiras, o tráfego mobile no Brasil cresce gradualmente. Ainda existe um longo caminho pela frente até a Web Móvel se consolidar e se tornar mais comum no dia a dia dos brasileiros, mas o cenário promissor, onde as novas safras do iPhone e Android estão desembarcando no Brasil, nos cada vez mais otimistas.

A enorme base de assinantes, o crescimento do 3G e a vontade do brasileiro de estar online cada vez por mais tempo, nos mostra o imenso terreno inexplorado que ainda temos no segmento de internet móvel. Vamos torcer para que em 2010 muitas destas barreiras sejam quebradas, ou pelo menos diminuídas.

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