Um dos pioneiros da blogosfera primitiva nacional estreia a primeira entrevista da nova série do WebHolic: Perfis da Blogosfera Brasileira.

Cris Dias foi criador do Vilago, um dos primeiros hostings dedicados a blog no Brasil. Vendeu o serviço em 2009 e se mudou para São Paulo para trabalhar na Colmeia como produtor executivo. Está desde 2010 na JWT como creative technologist.

Foi no fatídico 11 de setembro de 2001 que Cris despontou na blogosfera e para a mídia nacional: era um dos raros blogueiros brasileiros que estava em Novo Iorque no dia dos ataques. Em determinado post da sua cobertura do atentado, anotou num PS:

Estou achando incrivelmente legal o pessoal usando os comentários como fórum de debate, vamos nessa, galera!

Dez anos depois, o universo dos blogs proliferou e hoje se estende às redes sociais, o que amadureceu a oportunidade conhecida como mídia social. Por todo esse período, Cris Dias, mais do que apenas manter, ampliou seu público, principalmente com os famosos podcasts nerds e depois, no Twitter.

Mantém um séquito de mais de 21 mil seguidores, sempre defendendo opções mais inteligentes para consumidores, apontando as idiossincrasias das grandes corporações e alimentando a temática geek, com comentários sobre seu dia a dia e recomendações a respeito de suas predileções (filmes, seriados, gadgets, Apple etc.).

WebHolic: Aproveitando as recentes comemorações: 10 anos depois de 11 de setembro de 2001. Como foi ser testemunha ocular do maior ataque terrorista da história e, ao mesmo tempo, personagem no uso de um novo meio para registro desses fatos trágicos?

Cris Dias: Eu morava na “Grande NY”, do outro lado do rio em Nova Jérsei. Depois de trabalhar um ano e meio como programador estava desempregado (o que acabou me livrando de qualquer risco, já que eu estava em casa) me preparando para ir morar no Canadá, onde já tinha recebido uma proposta de emprego e estava só esperando a papelada.

Eu brinco que o 11 de setembro foi o maior viralzinho para a divulgação de um blog, já que muita gente até hoje comenta que ficou me conhecendo neste episódio. Mas foi um episódio muito marcante e dolorido em vários sentidos. Até hoje eu evito ficar remoendo o tema. A pior parte foram os meses seguintes, vendo a maneira como as pessoas viviam e se relacionavam mudar radicalmente.

O papel que eu tentei dar ao meu blog foi mostrar essa mudança e mostrar que a maioria dos americanos não fazia ideia do porquê de terem sido atacados. A mídia de massa, em especial, ficava simplesmente dizendo “fomos atacados porque representamos a bondade e o progresso no mundo”.

WH: Quais as dicas para manter uma base de leitores e seguidores interessados no seu trabalho online? Tem mais a ver com o seu perfil ou há algum método proativo que pode ser considerado?

CD: Hoje em dia a coisa está bem mais difícil, não só para quem está chegando como para quem já é das antigas mas quer, por exemplo, lançar alguma coisa nova. Em primeiro lugar porque, claro, temos muito mais opções de conteúdo. Depois porque com o Twitter as coisas ficaram muito mais fáceis de publicar e muito mais rápidas. Eu sou um que diz que o Twitter está matando os blogs, mas não no sentido ruim da coisa, gosto da mudança, o Twitter permite que a gente faça coisas numa velocidade impossível de se fazer com blog.

WH: Como você identificou a oportunidade para lançar o Vilago? Da ideia à prática, quais foram as maiores dificuldades?

CD: Foi o famoso caso de “resolver meus próprios problemas”. Eu tinha meu blog em algum provedor de hospedagem que nem lembro mais, mas não gostava muito do serviço, o suporte não entendia minhas necessidades… Então vi que mais meia dúzia de amigos tinha problemas parecidos. Aluguei um espacinho num servidor do tipo de revenda e fui crescendo no boca a boca. Até que a coisa chegava num ponto onde eu sentia que precisava de um pouco mais de controle técnico, e lá ia eu alugar um espaço maior, uma máquina inteira, um conjunto de máquinas…

WH: Da perspectiva de alguém que empreendeu e agora está no mercado, quais pontos positivos você enxerga para começar uma startup hoje em dia no Brasil?

CD: O Vilago era a famosa empresa de um homem só. Minha pessoa estava muito ligada à marca, porque um dos lemas era “aqui você não fala com um operador de gerundês, você fala com o dono”. Então eu não podia simplesmente contratar assistentes e deixar na mão deles. Com o tempo isso foi complicando para mim. Eu não podia tirar férias. Cheguei a viajar dez dias pela Europa uma vez, mas ficava pendurado no notebook o tempo todo. Em três dias que fui para um lugar com conectividade pior perdi dois ou três clientes.

Acabei mudando de ramo — hoje trabalho com publicidade — e vi que para meu crescimento e aprendizado eu tinha que trabalhar em empresas de renome, grandes ou pequenas. Não descarto a possibilidade de um dia voltar a ter meu próprio negócio, porque o empreendedor é aquele cara que fica sempre com a sensação de “se eu fizesse isso aqui do meu jeito seria melhor”. Mas ainda tenho muito que aprender.

O Brasil sempre foi um lugar complicado para startups, mas devagar e sempre as coisas vão melhorando, já dá para notar. Já vemos investidores procurando oportunidades, mercados que se abrem para quem quer tentar novos modelos de negócio e até o governo dando alguma facilidade, como o Supersimples que apareceu uns anos atrás. E aí vale aquela máxima de que quem chega primeiro já leva uma vantagem.

WH: Quais tendências, ou mesmo novos modelos de negócios, você percebe para redes sociais e mídia social? Acredita em quais próximos passos?

CD: Conteúdo é uma área que sempre foi uma grande promessa mas que ninguém conseguiu amarrar de uma maneira que seja bom para a marca e para quem produz. Nesta área temos empresas que vieram de todos os cantos tentando acertar, de produtoras publicitárias a editoras mais tradicionais.

O que dá para dizer é o que não fazer: não ir no “todo mundo está fazendo, vou fazer também”, como no exemplo óbvio dos sites de compra coletiva. Isso não é exclusividade do online, do social. As milhares de iogurterias e temakerias nas ruas estão aí para mostrar que o povo adora uma moda.

O importante é entender que a mídia social é a mídia da conversa e vai se dar bem quem conseguir estabelecer essa conversa com seu público.

WH: Obrigado e continue o bom trabalho!