Wagner "Manson" MartinsPara fugir de um embate legal com o apresentador Marcos Mion pela publicação de uma entrevista apócrifa, foi exilado no leste europeu, na Eslovênia. Porém, mesmo distante da jurisdição brasileira, foi alcançado por um processo da Coca-Cola eslovena por uso de imagem, já que plagiava o símbolo inconfundível do refrigerante. Estamos falando de um site que conseguiu fazer isso: juntar Marcos Mion, Eslovênia e Coca-Cola num parágrafo de introdução.

Wagner Martins, o carioca criador do Cocadaboa (RIP), ficou conhecido como Mr. Manson quando repercutiram suas travessuras e as do seu séquito de leitores. Nascido em 2001, o site foi pioneiro e grande difusor no território virtual brasileiro da cultura da trollagem, antigamente alcunhada de prankterismo por falta de termo melhor. Era a versão digital do Trote da Telerj.

Textos amorais, pilhas erradas, memes, calúnia e difamação, Sexkut, Bolão Pé Na Cova, Xaxim… Como esquecer da seção SACaneie e as dezenas de pegadinhas com centrais de atendimento? O Cocadaboa foi influente na maior parte do período em que esteve ativo.

Reconhecido por esse prestígio, em 2005 Wagner foi cooptado pelo mercado do marketing e publicidade, indo trabalhar na Agência Espalhe, de guerrilha e mídias sociais, da qual depois virou sócio. Essa migração entre áreas, segundo ele, teve a ver com amadurecimento:

É difícil continuar com o mesmo estilo depois de 10 anos. Hoje, na casa dos 30, leio o que escrevia quando estava na casa dos 20 e me acho um imbecil. Felizmente hoje vejo os vídeos do Felipe Neto e me consolo: Ok, pelo menos eu não era tão imbecil assim.

Além desse lance do tesão sobre o que escrever mudar, também entram outros pontos como o bom senso. Na época, não tinha nada a perder. Podia colocar no ar o que achasse engraçado e tudo bem. Se me processassem, levariam uma bicicleta no máximo. Quanto mais velho, mais preso o seu rabo fica e mais coisas você tem a perder.

Com a espontaneidade do humor, tirou da internet um aprendizado importante que aplica até hoje em seu trabalho:

Nunca leve a internet a sério. Mas ao mesmo tempo nunca a desafie.

WebHolic: Em 2004 você lançou um livro relatando uma viagem ao Piauí. Você realmente viajou ao estado para escrever Transpiauí ou a história é ficcional?

Wagner Martins: Ao contrário de Paulo Coelho (que nunca colocou os pés em Santiago da Compostela) e de Hunter Thompson (que nunca foi pra Vegas), eu de fato vesti a camisa do humor gonzo e vivi minha própria piada.

WH: Quais são os limites para o humor?

WM: Meu compromisso com o Cocadaboa era fazer as coisas que me divertiam. Não perguntava se os leitores iam curtir. E muitas vezes eles mesmos eram vítimas das sacanagens. Por isso nunca me considerei “humorista”, porque o “ista” ali é um sufixo que não pode ser deixado de lado. Ele significa que o cara está empenhado em atender o público.

O limite é imposto pela qualidade da piada. Se a sacada for excelente, dá pra fazer até o Papa rir de algo sobre pedofilia. Já se a piada é uma bosta, todo mundo vai reclamar. Até se for sobre questões menos sensíveis, como famintos na África.

WH: A Espalhe lançou recentemente a ferramenta indexSocial. O quanto da sua formação em economia você utiliza na agência?

WM: Até na época do Cocadaboa a minha faculdade era fundamental. Um lance bacana da economia é a busca por padrões. De tentar traduzir o comportamento irracional das nossas decisões em algo minimamente “algoritmizável”. Pro humor era achar essas padrões e subvertê-lo.

Pro indexSocial ajudou muito para a busca de uma “solução elegante”. Não são os algoritmos mais sofisticados. E essa é a maior vantagem da ferramenta. Ser simples, mas precisa pra quem administra canais proprietários tomar a melhor decisão. Se fôssemos ficar atrás da solução mais precisa, ficaríamos muito mais do que os 7 meses que levamos pra desenvolver tudo. O desafio foi justamente achar algo que atendia a nossa necessidade e ter certeza de que os indicadores davam instrumentos necessários pra fazer uma boa análise dos dados.

WH: Qual dica você dá para quem quer se sobressair entre tantos blogueiros, twitteiros, facebookers etc?

WM: Abandone qualquer senso de autocrítica se quiser ser o hit da semana. Se quiser algo não tão meteórico, mas mais duradouro, compartilhe. Não guarde as idéias para você. O talento de filtrar idéias e fazer elas chegarem na hora certa para a pessoa certa é mais valioso do que saber criar.

WH: Como sócio de uma agência conhecida, quais pontos positivos você enxerga no atual mercado brasileiro para começar um empreendimento?

WM: O que mais me empolga são as barreiras de entrada terem diminuído absurdamente. Conhecimento e tempo, hoje, são mais decisivos do que dinheiro para você transformar uma idéia em uma possibilidade de negócio. Falta ainda uma cultura de “venture capital” que é justamente fazer essas possibilidades de negócio decolarem. Mas pessoas com idéias já terem as ferramentas básicas nas mãos já é muito bom.

WH: Quais tendências, ou mesmo novos modelos de negócios, você percebe para redes sociais e mídia social? Acredita em quais próximos passos?

WM: Redes sociais aplicadas em processos internos. No RH. No financeiro. Na pesquisa e desenvolvimento. Na produção. Na segurança… Enfim, transformar cada um dos seus funcionários em usuário, insumo de informação e multiplicação. Possibilidades além do nicho “marketing e comunicação” vão começar a ser aplicadas.

A tal “Mídias Sociais” é vista hoje como o último cupim da fila. Vem atrás da propaganda, que é a etapa do processo que mais desfigura a real essência do produto. O cara olha para as oportunidades da internet socializada atualmente como se olhava para o email nos primórdios: “olha só que legal, isso serve pra fazer email marketing!”. Mas a “revolução do email” mudou a forma como uma corporação funciona nos mais profundos níveis. E é isso que vai acontecer coma tal “mídia social”.

WH: Obrigado e sucesso!