RWW Entrevista: Conrado Navarro, Sócio-fundador do Dinheirama

O Dinheirama começou como um blog e hoje é uma empresa especializada em educação financeira onde através de seus produtos e serviços procuram melhorar o nível de conhecimento econômico de cidadãos e empresas. Trata assuntos ligados à economia, educação financeira e finanças pessoais de forma natural e esclarecedora. Vem ajudando no desenvolvimento e aprimoramento de habilidades, de forma a contribuir com a gestão de suas finanças pessoais.

Conversamos com Conrado Navarro, sócio-fundador do Dinheirama. Confira a entrevista abaixo:

RWW: Conrado, você foi um dos primeiros empreendedores no Brasil a utilizar o veículo blog para ajudar o brasileiro a se educar financeiramente. Como você percebeu esta oportunidade?

Sempre fui apaixonado por duas áreas: finanças e informática. Graduei-me em computação, mas assim que possível passei a trabalhar com informática no setor administrativo. Então decidi me especializar e fiz um MBA Executivo com foco em finanças. Ao entrar em contato mais aprofundado com alguns temas relacionados aos investimentos e decisões econômicas, percebi que muito pouco desse material era compreensível para os jovens.

O desinteresse pela área só faz crescer as estatísticas de endividamento e acredito que não temos veículos preparados para lidar com o tema usando linguagem acessível e didática. Comprovei tal realidade através de uma pesquisa durante o MBA e então percebi que escrever de forma acessível, aproveitar meus conhecimentos de informática e finanças e minha trajetória poderia fazer diferença. A aceitação não demorou a ocorrer.

RWW: E no início, quem te deu apoio? Você tinha algum mentor ou parceiros estratégicos que ajudaram a viabilizar o negócio?

O principal apoio que recebi veio de minha família. Eu estava muito bem posicionado no setor privado, prestes a atingir minha independência financeira, e fiquei por quase um ano usando apenas meu tempo livre para ler livros, fazer pesquisas, redigir artigos e começar um livro. Então comecei a buscar contatos influentes e meios de aprender melhor sobre a Internet, otimização, empresas de criação de identidade visual etc. Comecei com capital próprio, sozinho e aos poucos fui encontrando pessoas e empresas dispostas a apoiar a iniciativa.

Fiz ótimas e duradouras amizades neste período, conheci pessoalmente muitos autores de sucesso e pude aprender mais sobre o nosso principal público-alvo, os jovens. Sempre pautei meu trabalho na humildade, na sinceridade e, principalmente, na honestidade. Os verdadeiros parceiros e grandes responsáveis pelo nosso sucesso são nossos leitores. Eles são as verdadeiras estrelas.

RWW: O que parecia ser apenas um blog, evoluiu bastante, saíram livros, um canal de vídeos, podcasts, foruns, parcerias diversas e aparentemente temos mais negócios a caminho. Pode nos contar um pouco mais sobre o crescimento e os planos para a Startup Dinheirama?

Como a maioria dos negócios bem-sucedidos, o Dinheirama começou como um hobbie, uma paixão. Então percebemos que havia espaço para uma mensagem mais abrangente, consistente e em diversos veículos. Conseguimos espaços em rádios, montamos nossa própria estrutura de criação de conteúdo e começamos a prestar serviços neste sentido para grandes grupos ligados à area financeira. Crescemos mais de 400% nesses três anos e hoje somos uma empresa de educação financeira.

Os planos incluem a publicação de novos livros, comercialização de DVDs, palestras e cursos específicos para empresas, educação financeira infantil e investir no crescimento do site e seus materiais de apoio (podcasts, videocasts, entrevistas, parcerias etc.). Queremos ser a referência para educação financeira na Internet, para a Internet e através da Internet.

RWW: Como é tocar a operação do Dinheirama hoje, quais os desafios e as maiores dificuldades?

Trabalhar com Internet implica estar pronto para trabalhar a qualquer hora, de qualquer lugar. O principal desafio sempre foi valorizar e viver com qualidade de vida e, ao mesmo tempo, dedicar suficiente esforço e energia para os projetos da empresa. Além disso, construir credibilidade e autoridade é um processo contínuo, lento, que exige muito profissionalismo e dedicação. Na Internet, o desafio é ainda maior.

Os principais desafios incluem dominar as tecnologias de comunicação hoje existentes ao mesmo tempo em que investimentos também no que já está consolidade e precisa melhorar. Por exemplo, vemos que há excelentes oportunidades no mercado editorial, especialmente quando notamos que o brasileiro lê, em média, apenas 1,8 livros por ano. Será que o brasileiro da nova geração quando se interessar pela leitura vai querer o livro em papel, sua versão eletrônica ou mesmo opiniões em blogs, sites e fóruns na Internet? Nos fazemos perguntas assim o dia todo.

Abrir, gerir e fazer crescer um negócio no Brasil não é fácil. A burocracia, os impostos e a falta de incentivo para determinadas áreas de atuação nos atrasam um pouco e por vezes dificultam relações comerciais com clientes. Vencidas essas barreiras, tudo fica mais fácil.

RWW: Sempre fui um leitor do blog e aprendi muito sobre finanças pessoais nos seus artigos. Mas agora gostaríamos de ouvir de você algumas dicas para quem está começando um empreendimento online, abrindo uma startup.

Sou meio controverso neste aspecto porque acredito muito na paixão do empreendedor pela sua área de atuação. Assim, primeiro tenha certeza de que você tem afinidade com o tema e é capaz de trabalhar com isso mesmo que o retorno financeiro não seja imediato (e normalmente não é). Então tenha um plano, ainda que não tão detalhado, capaz de nortear suas decisões. O que a empresa vai fazer? Explicar sua idéia e seu modelo de negócios é algo fácil e rápido? Quem serão os clientes? Concorrentes? Que estrutura você vai precisar?

Mas cuidado para não ficar só planejando. A idéia de ter um plano de negócios inicial é crucial para que você avalie a viabilidade da idéia. A partir daí será necessário registrar tudo e avaliar a questão operacional da empresa: você precisa de capital para iniciar os trabalhos? Tem dinheiro próprio ou vai ter que ir atrás de algum parceiro econômico? O paradoxo na minha opinião fica claro: faça por paixão, mas entenda o que você está fazendo e o que precisa fazer para crescer.

RWW: Nas startups de internet e tecnologia em geral, temos uma cultura que vem Vale do Silício de sempre valorizar muito os ganhos em “escala” e a necessidade de crescer rápido, para se vender a empresa ou abrir o capital. Essa cultura foi a propulsora de todo o mercado de Capital de Risco e ainda persiste. Para uma empresa nascente que trabalha com internet, quando e como deve ser feita a decisão Bootstraping versus Capital de Risco?

Primeiro, é preciso conhecer as características do mercado onde a empresa se insere. A cultura que vem do Vale do Silício está apoiada em uma gigante indústria de Private Equity, Angel Investors e em uma bolsa de valores infinitamente maior e mais estruturada que a brasileira. Além disso, o consumidor norte-americano tem características bem diferentes das nossas.

Em outras palavras, basta observar que empresas de tecnologia e voltadas para Internet surgiram em datas parecidas lá e aqui, mas o mercado as absorveu de forma muito mais intensa por lá. Rentabilidades elevadas em países desenvolvidos só são possíveis com maior apetite ao risco.

Aqui ainda temos o desafio de continuar com a migração social, do crescimento do PIB per capita e do poder de consumo. Além disso, investidores que desembarcam por aqui não querem correr tantos riscos com empresas de tecnologia quando é possível amealhar excelentes retornos nos investimentos em títulos e nas indústrias de commodities e matéria prima.

Depois das considerações sobre os mercados, minha resposta: correr para abrir capital não é algo tão simples por aqui. Ganhar escala neste mercado significa ter mais paciência, portanto as parcerias com empresas de capital de risco tendem a ser de mais longo prazo. Prefiro assim.

RWW: Quais as suas dicas para uma empresa de web que pretende se manter com recursos próprios, e como sobreviver neste mercado, onde talvez seu concorrente consiga levantar alguns milhares de reais, ou até mesmo milhões?

O diferencial sempre vai estar no atendimento ao cliente, na qualidade do serviço prestado e no relacionamento com os formadores de opinião. Começar pequeno não significa permanecer pequeno. Mas fazer bem feito significa ter oportunidade de fazer de novo. Nada disso tem a ver com o dinheiro em caixa ou o tamanho do negócio.

RWW: Caso o empreendedor vise buscar capital de risco no mercado, qual a melhor maneira de negociar os possíveis aportes? Como definir claramente os termos do contrato?

É preciso respeitar alguns passos e discuti-los com cuidado:

  • Plano de Negócios: é o passo fundamental para qualquer empreendedor que quer ter acesso ao capital de risco. Neste caso, detalhar bem o modelo de negócios, a concorrência, os diferenciais e a projeção financeira podem facilitar;
  • Apresentação, acompanhada de um acordo de confidencialidade: o empreendedor deve ser capaz de convencer os investidores e garantir que sua idéia está protegida;

A partir destes dois pontos o fundo pode ou não demonstrar interesse no negócio do empreendedor. Se for de interesse dos investidores colocar dinheiro na idéia, um termo de exclusividade deverá ser assinado. Este passo será seguido pela análise detalhada da empresa (Due Dilligence) e só então os termos da negociação final serão passíveis de negociação. A atenção do empreendedor deve estar voltada para a nova estrutura societária, controladores e modelo de gestão.

RWW: O mercado financeiro (incluindo o de Venture Capital) tem conceitos muito específicos, como ‘diluição acionária’, ‘Valuation’, ‘TIR’, ‘Payback”. Como um jovem empresário deve lidar com estes conceitos? Existem boas referências para orientá-lo nesse caminho?” Como entender estes conceitos, para poder negociar e falar a mesma língua dos investidores?

É preciso investir tempo e energia para conhecer melhor o jargão da negociação com fundos de capital de risco. As opções neste sentido são: contar com assessoria específica (escritórios e empresas), opção comumente usada e que tem aval dos investidores, ou buscar conhecimento de forma autônoma (cursos, livros etc.).

RWW: Quais os conceitos de educação financeira podemos aplicar também na gestão de uma startup?

Disciplina é o principal deles. Fazer o que tem que ser feito, dar sequência nas atividades, monitorar o andamento dos projetos, fazer seu trabalho. A disciplina é fundamental porque em uma startup não há rotina. Gestão de fluxo de caixa também é essencial, pois há que se fazer com o que o negócio se sustente e o faça de forma inteligente, sem endividamento excessivo. Usar o crédito só quando este for mesmo alavancar o faturamento e fazer crescer a margem de lucro.

RWW: Muito Obrigado Conrado e parabéns pelo Dinheirama.

Eu que agradeço pela oportunidade de dialogar com vocês e poder me dirigir aos seus especiais leitores. O trabalho de vocês é fundamental para que possamos ter cada vez mais empreendedores dispostos a compartilhar seu aprendizado com os demais, bem como aprender cada vez mais com o que cada um pode oferecer. Fico à disposição. Parabéns pelo sucesso e um grande abraço a todos, equipe e leitores.

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