RWW Entrevista: Elvis Branchini, Mantenedor da Cove

RWW: Elvis, faça uma apresentação resumida da Cove (http://insanus.org/cove/), por favor.

A Cove é fruto de uma profusão de pessoas geniais e que frequentavam o mesmo ambiente, a faculdade de Comunicação da UFRGS. Daquela velha frase “isso dava uma camiseta, rárárá”, que nunca vai adiante, resolvemos botar a mão na massa e fazer as camisetas mesmo. A produção ficou comigo, mas as ideias iniciais são coletivas. Por produção, me refiro a eu estampando em casa, em serigrafia, em modo oldschool, sem máquina nenhuma, só uma tela, tinta e rodo. Limita as possibilidades de fazer coisas com muitas cores, estampas cheias de frescuras e modernices, mas é massa. Acabou virando, pra mim, uma atividade fora do meu trabalho (sou publicitário), algo divertido de fazer, e que não me impõe nenhuma trava comercial ou industrial que uma grande marca teria.

RWW: Compilamos cerca de 30 lojas que vendem online camisetas no Brasil. Quais as razões para essa febre?

Camiseta é um meio de expressão muito acessível pra quem cria e pra quem usa, e é algo que une os dois, uma percepção em comum do mundo estampada no peito. Além disso, métodos de impressão, novos e tradicionais, ficam cada vez mais acessíveis.
Antes, para aprender a serigrafar, tinha meia dúzia de cursos. Agora, é só ir no Youtube e tem um monte de vídeo com dicas, ensinando o beabá. Umas horas de trabalho e você pode sair na rua com a camiseta que você mesmo fez, impressionar alguém, voltar pra casa e fazer a primeira venda. Mais gente experimenta e alguns enxergam nisso uma oportunidade de negócio.
Vender online é o caminho mais fácil, não precisa nem ter o produto na mão até alguém pedir oficialmente. Não demanda um grande planejamento nem um investimento inicial alto. O grande lance é poder fazer aquilo que você acha legal, sem levar a sério demais o que os outros vão pensar. Pode não ser efetivo pra ganhar dinheiro, mas é bem divertido.

RWW: Há quanto tempo a loja está no ar? O que mudou no projeto do primeiro dia até agora?

Já se vão uns 6 anos. Não mudou muito, na verdade tá meio estagnada. Como sempre foi uma atividade paralela, não dediquei muito tempo a planejar, atualizar e fazer a coisa andar. O lado legal é ver que, sem fazer nenhum esforço de divulgação, continua chegando gente no site todo dia, pedindo camiseta, comentando da reação das pessoas. Claro que nesse tempo apareceram muitas lojas vendendo online e criando modelos de negócios realmente inovadores.

RWW: Quais os maiores desafios enfrentados?

Não são desafios amedrontadores, mas algumas dificuldades passam por:- Garantir pro cliente, via internet, que o material é de qualidade, até porque tem muita porcaria por aí e as pessoas tem razão de desconfiar.- Conseguir material de qualidade e fornecedores confiáveis.- Aprender a ser copiado o tempo todo.

RWW: O quanto uma iniciativa assim dependente de serviços de terceiros, como sistema de pagamento online e o sistema gestor da loja? Quais serviços terceiros além desses são necessários?
No caso da Cove, que se manteve mais como passatempo e diversão, é tudo simples e direto, então os únicos terceiros na história são os fornecedores de insumos pra produção e os correios. Não tenho um sistema de gestão, e o pagamento é pelo velho depósito em conta. O correio, felizmente, nunca me deu problema. O principal mesmo foi achar malhas boas, com cores constantes, fornecedores de confiança, e isso exige tempo.

RWW: Vocês atacam algum nicho específico entre os que procuram camisetas na internet? Com quem vocês concorrem?

Não tem um perfil de público muito definido. Uma boa parte é jovem entre 20 e 35 anos, alto grau de escolaridade, muita gente ligada à comunicação, jornalismo, design, publicidade, web, nessa linha. Mas aparece um pouco de tudo, até gente pedindo Raul (sério).

RWW: Como vocês criam e escolhem as estampas? Preferem as originais ou as com referências já conhecidas? Há alguma preocupação com direito autoral?
Quase tudo é de nascimento espontâneo de alguma piada entre amigos, ou algo que alguém quis e várias outras pessoas quiseram e no fim acabou ficando no catálogo. Nesse sentido, referências de filmes ou músicas são constantes. Mas não curto fazer camiseta do Poderoso Chefão, ou do Laranja Mecânica. Já existem trilhões parecidas no mercado, não faz sentido fazer mais uma. Se for algo diferente, uma visão particular da coisa, ou até uma piada, aí sim. Mas só mais uma camiseta de filme (e sempre os mesmos) não me deixa muito à vontade. Só mantenho porque tem sempre algum amigo pedindo, e sou péssimo pra dizer não. E bem ou mal são filmes que eu gosto.
Sobre direito autoral, não levo isso tão a sério porque não invisto na Cove como negócio, mas é chato ser copiado. Já encontrei desenhos nossos em camisetas na Argentina, tão iguais que tinham os defeitos do nosso layout copiado. Amigos também já viram em lojas em Amsterdã. Quando fizemos a Força, Júnior, que criou um hype rápido na web, tinha camelô vendendo na rua em São Paulo antes de termos as prontas na loja. Por um lado, é massa ver que a galera curte a ponto de copiar, pois se não houvesse uma certa liberdade de criação não teríamos feito nenhuma das camisetas, já que tudo é cruzamento de referência. Mas copiar na cara dura só pra ganhar dinheiro é sacanagem, então acho chato quando fazem com a gente. Não vou brigar, não levo muito a sério.

RWW: Alguma dica para os que querem empreender nesse ramo?

Vale a pena se cercar de gente criativa, capaz de colaborar com coisas inteligentes. Tenho sorte de ter amigos geniais. É claro que quem pretende profissionalizar o negócio, aumentar vendas, lucrar e viver disso, vai precisar se preocupar mais com o processo todo. Mas começar é fácil.

RWW: Quais os planos para o futuro?
Vamos reavaliar as estampas que valem mais a pena fazermos (num sentido de satisfação pessoal, não financeiro), botar um site novo no ar e seguir sem muita pretensão além de me divertir fazendo.

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