Martin Cagan é o fundador do Silicon Valley Product Group. Ele já foi VP de Gestão de Produtos para o Ebay e passou por empresas como AOL e Netscape. Marty é hoje uma das maiores referências em gestão de produto no Vale do Silício. Ele esteve no Brasil prestando consultoria para a Startup mineira Samba Tech e nos concedeu esta entrevista.

Diego: Marty, é uma honra tê-lo no Brasil, quais as suas primeiras impressões sobre o mercado local e nossas startups?

Marty: Esta é a minha 3a viagem ao brasil, e nas vezes anteriores eu visitei a Locaweb, quando eles ainda eram menores, agora eles estão bem grandes. Essa é a minha primeira vez em Belo Horizonte e em uma startup do tamanho da Samba Tech, e estou bastante impressionado. Você já conheceu os escritórios deles? Parece muito com os do Vale do Silício. Eu já estive em vários outros lugares do mundo, mas nunca vi algo parecido. Eu não acho uma coincidência que eles estejam indo tão bem. Eles criaram um ambiente próprio, e é importante criar este tipo de ambiente, para atrair bons profissionais. Eles estão criando produtos com a mesma qualidade de produtos de lá (Vale do Silício). É interessante notar que as vezes as pessoas não tem idéia de onde ficam as grandes empresas de internet no mundo.

Diego: Um cenário comum em países em desenvolvimento é que as Startups locais tendem a ser cópias de modelos provados nos Estados Unidos e Europa. Pense em versões locais de serviços como digg, linkedin, youtube e outros. Quais as dicas que você daria aos empreendedores que estão desenvolvendo versões locais de produtos que já se provaram?

Marty: É engraçado, pois estava falando sobre isso com um VC brasileiro hoje mais cedo. Eu acho que este fenômeno é bastante normal. Eu adoro trabalhar com startups de países em desenvolvimento e as cenas começaram assim na Alemanha, India, e vários outros lugares. Uma grande parte destes países está agora aprendendo a desenvolver produtos. É uma etapa importante até que se chegue a startups que desenvolvam produtos de alto nível para competir lá fora. O caso da Samba Tech é emblemático, a tecnologia que eles desenvolvem é até mais útil no mercado americano que no Brasil.

O conselho que eu dou é não focar em ser um líder no mercado local, e sim disputar no mercado estrangeiro. Isso vem acontecendo também com várias startups no mundo. Veja o caso do Zoho, eles estão loalizados na India, mas estão disputando o mercado global.

Meu conselho para estas startups é “Pensem globalmente”, seus desenvolvedores são tão bons quanto os de qualquer outro lugar! E pense sempre em como se diferenciar, pois geralmente as grandes empresas estrangeiras tem muitos recursos e eles podem a qualquer momento entrar no seu mercado e dominá-lo. Existem vários produtos que fazem sentido apenas para os mercados locais, mas você deve pensar cedo em se diferenciar e expandir sempre que possível.

Diego: Atualmente nós vemos várias pessoas falando sobre como escolher os recursos certos para seu produto. De um lado temos Eric Ries e o pessoal do Lean Startups falando de seleção de features baseada apenas nos interesses do cliente, mas do outro temos o pessoal da 37 Signals, afirmando “Você é o seu cliente” e por isso deve produzir algo que acredita. Qual a sua opinião sobre estas abordagens?

Marty: Essa é provavelmente uma das perguntas mais inteligentes que já ouvi sobre gestão de produtos (risos…) Estou impressionado, nos Estados Unidos eles não costumam fazer perguntas difíceis assim…

No meu ponto de vista, Eric está correto, lean startups são basicamente a abordagem certa para novas startups. A 37 Signals é sem dúvida uma das minhas empresas favoritas. Mas eles estão em uma situação especial, para começar, os produtos que eles desenvolvem praticamente só atendem empresas como a deles. Este modelo tem menos chances de funcionar para empresas que possuem clientes com necessidades diferentes das da empresa. Então certamente é mais fácil testar um produto para pessoas como você, mas na maior parte dos casos, esse não é o caso mais comum.

Diego: Talvez isso seja devido ao fato de a 37 ter uma comunidade criada ao redor do seu blog, Signal vs Noise, antes de lançar o Basecamp e isso possa ter tornado a empresa mais parecida com seus clientes, ou os clientes mais parecidos com a empresa.

Marty: Sim, existe uma comunidade bem alinhada ali. Mas ironicamente, a 37 Signals usa muitas das práticas que defendemos (no SVPG), eles usam muita prototipagem, feedback dos usuários, e outras. Eles são mais diferentes no posicionamento da empresa que na prática de desenvolvimento de produtos.

Diego: Quando pensamos em lean startups e encontrar o Product/Market Fit, nós entramos em uma jornada complexa pelas necessidades do cliente e as definições do produto não são muito claras. Como gerenciar o Roadmap de um produto num cenário destes?

Marty: A maioria dos Roadmaps que os gerentes de produtos fazem não tem utilidade. Eles são apenas teoria, é o melhor palpite do gerente de produtos sobre o que o cliente quer. Em geral eles anotam um monte de especificações, entregam para os desenvolvedores e eles constroem algo que não impacta o cliente. É um processo muito pouco eficaz. Na maior parte das empresas com as quais eu trabalho, a primeira coisa que fazemos é eliminar boa parte de seus roadmaps. A menos que você tenha uma boa certeza do que seu cliente precisa, esta não é uma boa estratégia. O que você chama de Product/Market Fit, eu costumo chamar de “Product Discovery”, que é quando você descobre um produto que os clientes tem necessidade e o seu time é capaz de desenvolver.

Quase sempre você começa com uma idéia, mas ao longo do tempo ocorre uma grande virada de direção. Veja casos como Youtube, que era originalmente um site de encontros, o Flickr que nasceu como um jogo social e vários outros serviços. Tem que ser uma estratégia aberta, e comprometida com o feedback do cliente.

Diego: Quais as principais diferenças do trabalho de um gerente de produtos ao longo dos estágios de uma empresa? Quais as diferenças entre o trabalho em uma startup e uma empresa consolidada?

Marty: Eu sempre recomendo a experiência de estar em uma startup para os gerentes de produtos. Em uma grande empresa o maior desafio do gerente de produtos é proteger o sucesso que eles já tem. Então o trabalho do profissional é apenas de melhorar o produto que já existe e já está consolidado, e essa abordagem geralmente é baseada em melhoras incrementais de baixo risco, e não em inovação.  Isso pode até funcionar por algum tempo, mas geralmente estas grandes empresas percebem que isso virá a ser um problema e eles acabam precisando de ajuda. Isso não é gestão de produtos, na melhor das hipóteses é uma gestão de produtos ausente.

Diego: Para finalizar nos deixe algumas dicas para o gerente de produtos de primeira viagem.

Eu acho que este é o melhor momento para quem quer começar sua empresa e ser um empreendedor. Nas startups geralmente o gerente de produtos é um dos fundadores. E se você for por este caminho, não corra atrás de investimento, tente se virar o máximo possível com suas economias.

Outra coisa importante é pensar globalmente, mas agir com os recursos que você tem. Não importa onde você está, apenas esteja aberto a conhecer outras possibilidades e ouvir clientes de outras partes do mundo.