Social Media Brasil: Cultura, Games e Nerds – 2ª parte

Cultura na Web, o Software da Inclusão

Jessica Faye Carter, advogada norte-americana e CEO da consultoria Nette Media, abordou o tema “Cultura por meio das mídias sociais”. Com exemplos ricos, Jessica abriu ares para uma discussão que ainda tem tomado forma no Brasil, a questão da cultura propriamente dita no meio digital. E não é somente a customização de conteúdo para várias redes da Web 2.0, mas como uma abordagem cultural pode ser feita para a segmentação em nichos muito específicos. Essa necessidade acontece pelo desenvolvimento de grupos culturais, pela experiência do usuário e também pela conquista de mercados estratégicos.

E claro, as empresas necessitam se firmar em diferentes culturas. Um case que Jessica apresentou foi o Éne-bé-a, o portal da NBA em espanhol. A identidade, o gosto pelo basquete da Liga, existe em culturas muito diferentes. A meta obviamente foi atrair mais audiência, mas o conceito foi o da não exclusão de qualquer minoria da sociedade, em especial dos EUA, em que cerca de 14,1% da população (41,3 milhões de pessoas) é de origem hispânica. Mais do que vendas e ganhar consumidor é ter a inclusão como objetivo principal. Outro modelo foi o I’mhalal, o mecanismo de busca direcionado aos muçulmanos, que compreende não só o árabe e o urdu (a língua oficial da religião), mas também as centenas de dialetos que os idiomas possuem.

Não é de hoje que se discute isso, mas é muito bom o rumo que a conversação está se levando. Outra ação que fez parte da apresentação da advogada foi da companhia aérea American Airlines com o portal Black Atlas – que desenvolveu conteúdos proprietários –, um canal que compartilha notícias de viagem direcionada aos passageiros de descendência afro-americana, em sua grande maioria. A decisão de investimento foi também pelo aumento de receita no mercado de turismo desse público – em 2009 o ganho total foi de U$ 5 bilhões por ano.

Os locais são focados nos principais destinos, dentro e fora dos EUA, e também são publicadas matérias em vídeo relacionadas à cultura negra. Além disso, consumidores podem indicar lugares, votar em restaurantes, passeios turísticos e comentar sobre o voo realizado com a companhia.

O resultado final do hotsite foi feito depois de variados testes e etapas. Começou internamente, com uma pesquisa de viabilidade entre os colaboradores. Um dos desafios e cuidados que os executivos da companhia tiveram foi, entre outros, de evitar estereótipos, maneirar no humor – não exagerar demais –, e não limitar culturas. E as melhores práticas recomendadas foram, e ainda são, ouvir seu usuário, monitorar e responder ao seu feedback, sempre.

O nerd que há em todos nós

A concorrida palestra da dupla do portal Jovem Nerd, Alexandre Ottoni e Deive Pazos, valeu pelo bom humor. Com a companhia do autor Eduardo Spohr, os rapazes apresentaram o case do livro do escritor, “A Batalha do Apocalipse”. A saga começou em 2007 com um comentário meio (ou nada) descompromissado sobre a obra no podcast dos nerds no site, o Nerdcast, que vai ao ar todas as sextas-feiras. Desde então a publicação – a venda já está próxima dos 5 mil exemplares – chamou a atenção de grandes editoras. Em julho, o livro será lançado pela Editora Record em todo território nacional.

Alexandre contou um pouco de toda a história de começo. Descrença, desobrigação, insegurança e tudo mais. Eles correram atrás, persistiram e bateram o pé. Ganharam mais de cinco prêmios, entre eles o Prêmio Info em 2008 e no ano passado venceram a categoria “Blog do Ano” no Video Music Awards da MTV Brasil. O site iniciou as atividades em 2002 com vendas de camisetas de temática geek, como em camisetas do Sheldon (do genial seriado The Big Bang Theory). E até hoje as descoladas são um item indispensável na loja de produtos próprios, a Nerdstore, o que ainda inclui toalhas e canecas.

 

Games como formas de produção de conteúdo de marca

Experiência de mercado como aprendizado e foco em culturas regionais são as grandes lições que as produtoras de game online aprenderam. No painel para comentar sobre a situação da área estava o argentino Mariano Suarez, o Captain Melon, CEO da produtora de games Three Melons.

A interação orgânica com uma marca é a principal informação dentro de um planejamento na criação de um game. Suarez falou de alguns de seus trabalhos de diversão interativa em redes sociais, como o game do Lego com os personagens caracterizados de Star Wars e Indiana Jones até o famoso aplicativo do Facebook, o Bola Social Soccer.

Assim como o Bola, a sacada para um game irresistível aos usuários é a experiência cumulativa, não há um final ou um game over. Lançado no começo do ano, o jogo será disponibilizado também no Orkut nos próximos meses. A FOX Networks é a responsável pela estratégia comercial do produto, que inclui a comercialização das cotas de patrocínio do jogo e está com contrato fechado com dois anunciantes no Brasil, a Allianz Seguros e a Coca-Cola.

E como um projeto já lançado, apesar de estar no mercado, o produto nunca é final, está sempre se desenvolvendo. Early-adopters recomendam e sugerem alterações nos games. “Esse público é inovador, eles conhecem nosso trabalho e nos dão feedbacks incríveis”, explica.

A realidade dos jogos online, para o Captain Melon, ainda tem uma dose bem discreta de usuários Premium, em que apenas 2% deles pagam para jogar. Sem apelo de marca, alguns jogos ficam, muitas vezes, economicamente inviáveis. Pela conversão de usuário em apoio à experiência social com o branding, o que fica claro não é somente a venda, é também o envolvimento.

Para o CEO, o mais bacana é fazer jogos que unem diversão a uma narrativa que é como a vida real, como o comportamento humano. Depois disso, o argentino lembrou-se do case The Fun Theory, da “escada-piano” da Volkswagen sueca. A ação não foi um jogo, mas Suarez garante: “É uma tendência para o mercado”, e finaliza: “Assim como reciclar lixo pode virar um game. É divertido e compensador”.


Isabel Geo é jornalista, empreendedora e comanda a Agência de Comunicação Multiplataforma Visionello Conteúdo Inteligente.

0 responses to “Social Media Brasil: Cultura, Games e Nerds – 2ª parte

  1. Ótima cobertura Isabel! Gostei principalmente do case do I’mhalal. Não conhecia e é muito legal perceber que ainda existe espaço para quem se adapta e incorpora a cultura dos grupos que a web une. Long Tail Rocks!

  2. Ótima cobertura Isabel! Gostei principalmente do case do I’mhalal. Não conhecia e é muito legal perceber que ainda existe espaço para quem se adapta e incorpora a cultura dos grupos que a web une. Long Tail Rocks!

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