Vaza Desabafo de Googler com Insights Sobre o Fracasso da Empresa em Criar Plataformas

Steve Yegge, programador e blogueiroSteve Yegge trabalhou na Amazon por seis anos e meio antes de ir para a Google, em 2005. Por descuido e algum desentendimento sobre o funcionamento do Google+, um texto seu, destinado aos colegas de trabalho, acabou sendo compartilhado com toda a internet na madrugada de 12 de outubro.

Trata-se de uma análise extensa, bem escrita e em tom de desabafo sobre como a empresa na qual trabalha fracassa ao não enxergar seus produtos como plataformas extensíveis, que atualmente nascem primeiro como produtos e, se emplacam, caminham lentamente para o modelo de plataforma – um roadmap que não seria o ideal.

Começa citando seus aprendizados como funcionário da Amazon e o que seria, para ele, o grande defeito dos produtos da Google: são concebidos e construídos para ser “apenas” bons produtos mas não plataformas acessíveis a qualquer um. Cita o Google+ como “um excelente exemplo do fracasso do Google para entender plataformas”:

A plataforma Google+ é uma patética reação tardia […], um estudo pensando no curto prazo, baseado na noção errada de que o Facebook é bem sucedido por ter construído um ótimo produto.

O que seria, então, uma plataforma acessível? Para responder essa questão, dedica-se a falar da Amazon, sua cultura interna, seus defeitos, o que aprendeu trabalhando lá e dá detalhes até então desconhecidos do grande público sobre o estilo de administração de Jeff Bezos, descrito como um Steve Jobs centralizador mas sem requinte:

Jeff Bezos é um micro-gerenciador sem noção. Ele micro-gerencia cada pixel do site da Amazon. […] Estamos falando de um cara que com seriedade tem dito em várias ocasiões públicas que as pessoas deveriam pagar-lhe por trabalhar na Amazon. Ele carrega post-its com seu nome, lembrando a todos “quem dirige a empresa” quando discordam dele. […] Bezos é super esperto; não me entendam mal. Ele só faz obsessivos por controle comum parecerem hippies drogados.

Segundo Yegge, Bezos implementou uma filosofia na qual todo produto tem obrigatoriamente que ser um serviço que, como uma plataforma interoperável, conversa de forma transparente com todos os outros serviços da Amazon. Assim, todos nascem como SOA prontos, carregando todo o potencial para ser estendidos a terceiros. Para ele, o AWS é isso:

Sem dúvida há prós e contras na abordagem SOA, e alguns contras são bastante longos. Mas no geral é o correto pois a opção pelo SOA permite arquitetar plataformas. […] A primeira coisa importante que Bezos percebeu é que a infra-estrutura que haviam criado para a venda e entrega de livros e outros itens poderia ser transformada numa excelente plataforma de computação. Então agora eles tem a Amazon Elastic Compute Cloud, e a Amazon Elastic MapReduce, e a Amazon Relational Database Service, e um arsenal inteiro de outros serviços disponíveis em aws.amazon.com. Esses serviços mantém o backend de algumas empresas muito bem sucedidas […] A Amazon sacou isso. O Amazon Web Services é incrível. Basta olhar para ele. Dê uma navegada. É embaraçoso. Não temos nada disso.

O texto completo pode ser lido aqui: Stevey’s Google Platforms Rant (via Slashdot).

Destacamos (e traduzimos) outros trechos:

Outra grande realização [de Bezos] foi a de que nem sempre é possível construir a coisa certa. […] Não sei ao certo como Bezos chegou a este feito: a percepção de que não se pode construir um produto e ele ser bom para todo mundo. Mas isso não importa, pois ele sacou. Há um nome formal para esse fenômeno. É chamado de acessibilidade e é a coisa mais importante do mundo da computação. A. Coisa. Mais. Importante.

Uma coisa que a Google não faz bem são plataformas. Nós não entendemos plataformas. Não sacamos plataformas. Alguns de vocês sacam, mas são a minoria. Isso se tornou dolorosamente claro para mim ao longo dos últimos seis anos. Eu tinha esperança de que a pressão da concorrência da Microsoft e da Amazon e, mais recentemente, do Facebook nos fizesse acordar coletivamente e começar a fazer serviços universais. […] Mas não. Não; é como nossa décima ou décima primeira prioridade. Ou décima quinta, não sei. É muito baixa.

Um produto é inútil sem uma plataforma, ou, mais precisa e acuradamente, um produto sem plataforma sempre será substituído por um produto-plataforma equivalente.

Facebook sacou isso. Isso é o que realmente me preocupa. Isso é o que impeliu minha bunda preguiçosa a escrever isto. Eu odeio blogar. Odeio… “plussing”, ou qual seja o nome dado para quando você faz um discurso denso no Google+ mesmo sendo ele um local terrível para fazê-lo, mas você faz isso de qualquer jeito pois no final você realmente deseja que o Google seja bem sucedido. […] Depois que você se maravilhou com o que oferecem as plataformas da Microsoft e da Amazon – e do Facebook, acho (eu não olho, porque não quero ficar muito deprimido) -, volte-se para developers.google.com e navegue um pouco. Bem grande a diferença, né? É como seu sobrinho de quinta série rascunharia se ele estivesse fazendo um trabalho para mostrar o que uma grande empresa de plataforma poderia estar construindo se eles tivessem, como sábio recurso, um aluno de quinta série. […] Estou apenas descrevendo francamente como o developers.google.com soa a alguém de fora. Parece infantil. Onde estão as APIs do Google Maps pelo amor de Deus? Algumas coisas lá são projetos experimentais. E as APIs para tudo que cliquei eram… Eram insignificantes.

Ironicamente, o Wave foi uma ótima plataforma, que descanse em paz. Mas fazer algo ser uma plataforma não vai torná-lo um sucesso instantâneo. Uma plataforma precisa de uma aplicação matadora. O Facebook, ou seja, os serviços que eles oferecem com murais e amigos e tal, é a aplicação matadora para a Plataforma Facebook. E é um erro bastante grave concluir que a Aplicação Facebook poderia ter sido tão bem sucedida sem a Plataforma Facebook.

O problema que enfrentamos é muito grande, pois isso demandará uma mudança cultural dramática a fim de começarmos a correr atrás do atraso. Nós não fazemos plataformas internas orientadas a serviços, assim como não fazemos as externas. Isso significa que “não sacar isso” é uma endemia por toda a empresa: os gestores de projeto não sacam, os engenheiros não sacam, o time de produto não saca, ninguém saca isso. […] Não podemos continuar lançando produtos e fingir que vamos transformá-los em mágicas e belas plataformas amplas depois. Tentamos isso e não está funcionando. […] Não estou dizendo que é tarde demais para nós, mas quanto mais esperarmos, mais nos aproximamos do Tarde Demais.

0 responses to “Vaza Desabafo de Googler com Insights Sobre o Fracasso da Empresa em Criar Plataformas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *