Guest post: Leandro Faria é CEO da Datastorm, empresa especializada em soluções de Big Data Analytics para o mercado corporativo. Empreendedor digital, é expert em negócios na internet e um dos maiores especialistas em desenvolvimento ágil de software do país.

É comum que os acontecimentos do mercado façam com que capital esteja mais ou menos disponível para investimento e fomento em inovação. Eventos marcantes como a bolha da internet em 2000 fizeram com que houvesse um apagão dos fundos de venture capital e angels durante algum tempo, da mesma maneira com que exits relevantes fazem com que haja um frenesi e aquecimento do mercado, de um jeito que ninguém queira ficar de fora da festa.

A maturidade dos modelos de negócios, cada vez mais orientados a sustentabilidade e saúde financeira, tem criado um fluxo constante de investimento em inovação. É interessante ver que este fenômeno não acontece somente em startups de tecnologia, mas também nas empresas em geral. Uma pesquisa publicada pela Booz & Co, apontou que as empresas que têm maior sucesso e retorno do investimento em inovação não são as que necessariamente investem o maior montante de capital, mas sim as que investem com maior frequência e regularidade. É o caso claro de empresas conhecidas pelo seu perfil de inovação, como a 3M, Google e farmacêuticas como Roche, Pfizer e Novartis.

É exatamente o que acontece com o mercado de startups, porém com uma capilaridade maior. Com a maturidade do ecossistema (empreendedores, empresas, aceleradoras e investidores ), cria-se uma recorrência de investimentos que consequentemente geram negócios sustentáveis e exits interessantes, independente da taxa que sucesso que naturalmente é mais alta ou mais baixa em determinados mercados ou ecossistemas.

Acontece que um detalhe importante eventualmente é esquecido: fundos de venture capital não são empresas de inovação ou de tecnologia, são instituições financeiras. Por mais que exista um claro e profundo conhecimento do mercado e o aporte de experiência dos investidores — o chamado smart money — o objetivo dos fundos de venture capital e investidores em geral é puramente financeiro. Naturalmente o objetivo de toda empresa e atividade econômica é gerar riqueza e lucro líquido, mas o empreendedor à frente do negócio na maior parte dos casos tem o desejo de criar produtos e serviços que façam sentido para o mundo, além de fundar um negócio duradouro e que perpetue. E aí que entra o problema.

Fundos de venture capital como instituições financeiras precisam de lucro para operar manter suas atividades, lucro este que é gerado com retorno sob o investimento comumente vindo de aquisições e aberturas de capital na bolsa. Acontece que a demanda pelo retorno é grande extremamente rápida. Como na média a cada 10 empresas investidas 1 traz retorno, para que os investimentos façam sentido é preciso que a empresa investida traga ao menos 10 vezes o valor investido em retorno.

Até aí tudo bem, o real problema é o fluxo financeiro. Para manter uma operação saudável, os fundos precisam que este retorno seja gerado em um prazo curto, e cada vez menor. E aí vem a pergunta: que tipo de inovação nasce, ganha maturidade e dá retorno em um prazo curto? Apps. Não é atoa que estamos passando por um boom de aplicações dos mais diversos tipos, categorizadas como inovações revolucionárias. Aplicações web, desktop ou mobile são de fato inovadoras e trazem muitos benefícios operacionais e de produtividade para as empresas e pessoas, mas estão longe de ser disruptivas de verdade.

Neste cenário, a verdadeira inovação, genuinamente disruptiva — como a criação de uma indústria totalmente nova — é muitas vezes retraída. Se o investidor espera o retorno em um prazo curto, como ele iria investir em um negócio que pode levar 5 ou 10 anos de pesquisa e maturação até o go-to-market?

É cada vez mais raro ver exemplos de empresas como a Tesla Motors nascerem e prosperarem. Elon Musk e Straubel, em conjunto com Martin Eberhard e Marc Tarpenning que financiaram o negócio no início, foram mais que pioneiros na construção da empresa, mas verdadeiros guerreiros. Acumulando 11 rounds de investimento e quase 1 bilhão de dólares em capital levantado, a Tesla é um caso claro de uma empresa disruptiva de verdade. Fundada em 2003 em Palo Alto, a empresa produz carros elétricos com alta tecnologia embarcada e abriu o capital na bolsa (NASDAQ:TSLA) no dia 29 de junho de 2010.

É interessante dizer que o Tesla Roadster, primeiro veículo da companhia, usa um motor desenvolvido a partir do modelo criado em 1882 por Nikola Tesla, engenheiro mecânico que dá nome a empresa. O Tesla Model S, modelo atualmente produzido pela empresa, pode rodar até 426km com uma única carga da bateria, e vendeu mais de 25.000 unidades em 2013.

A Tesla é apenas um dos exemplos de inovação disruptiva que acontecem no mundo. Passamos agora por um momento em que o hardware volta a ganhar espaço e trazer um novo ar para ecossistema de inovação e startups, mudando a sistemática de investimentos e criação de produtos.

Mais do que um boa ideia e uma capacidade técnica de desenvolvimento de software, negócios de hardware demanda mais capital para a criação de protótipos e produção em massa, e vão provavelmente sofrer na passagem pelo vale da morte financeira das startups, aquele tempo de investimento no desenvolvimento dos produtos até o primeiro faturamento.

O novo boom de hardware

É válido analisar que boa parte destas novas startups de hardware têm um modelo de financiamento em comum: o crowdfunding. Apesar de haver um misto entre capital de risco e o crowdfunding, plataformas como oKickstarter têm financiando diversos projetos de hardware como o smartwach Pebble, que gerou uma das campanhas de maior sucesso no Kickstarter levantando mais de 10 milhões de dólares em menos de 30 dias.

Um caso interessante também é o recém lançado, Sense. O produto criado por James Proud, ex-participante do programa de incentivo à inovação da fundação de Peter Thiel (Thiel Foundation), é um elegante e bem feito monitor de qualidade do sono. O dispositivo é posicionado próximo a cabeceira da cama e mede a temperatura, humidade e intensidade da luz no quarto. O aparelho não só monitora a qualidade do seu sono, mas também tem um despertador inteligente que o acorda de maneira mais suave, gradativamente a medida em que você sai do sono profundo.

campanha lançada no Kickstarter no dia 23 de julho de 2014, arrecadou mais de 120 mil dólares nas primeiras hoje, e hoje a exatos 12 dias do encerramento, já alcançou a marca de 1.8 milhões de dólares com a participação de 15.000 backers. Apesar do sucesso na campanha do Kickstarter, sabe-se que o projeto recebeu um aporte de investidores desconhecidos de pelo menos 10.5 milhões de dólares.

Um artigo da Forbes do início do ano disse que “O hardware é o novo software”. A quantidade de novos negócios de hardware criados no ano de 2013 é realmente impressionante, boa parte impulsionados por dois exists interessantes: a Nest adiquirida pelo Google por 3.2 bilhões de dólares, e da Makerbot adiquirida pela Stratasys.

Um caso claro deste movimento é o HAXLR8R em São Francisco. O programa envia times de startups de hardware para a China por três meses para criar protótipos físicos de seus produtos e então retornar à São Francisco em busca de capital. A estrutura criada pelo HAXLR8R possibilita a operacionalização dos negócios de uma maneira antes impossível. Naturalmente, a complexidade e os custos de ramp-up de uma startup de hardware é consideravelmente maior do que uma startup de software já que a operação logística e manufatura impõe várias barreiras (físicas e operacionais) para o negócio.

Em todo caso, por mais promissor que o mercado pareça, o consumidor leva tempo para adotar novas tecnologias. Existe um senso comum de que o próprio Google Glass ainda leve alguns anos para decolar, e estima-se que a adoção massiva acontecerá em 2020. O ponto fundamental aqui não é só o fato da produção, distribuição e comercialização de um novo produto, mas os aspectos de segurança, confiabilidade e privacidade envolvidos em usar um óculos inteligente que pode tirar fotos e filmar discretamente, portar um dispositivo no braço o dia todo ou mesmo dormir sendo monitorado.

Ainda é interessante analisar o hardware como uma boa maneira de vender software. Com uma abundância de aplicativos no mercado, é cada vez mais difícil fazer com que o usuário gaste dinheiro com software. Sendo assim, esta nova gama de dispositivos (com preço abaixo de 200 dólares) são o contexto perfeito para vender uma experiência ao usuário — contemplando o hardware e o software embarcado — já que o consumidor já está acostumado com o fato de ter que pagar por um produto físico.

Também é importante ver que 9 das 10 maiores empresas de tecnologia do mundo (por receita) são empresas de hardware, e ainda que boa parte dos fundos de venture capital da vanguarda fizeram seus retornos em empresas de hardware. Apesar dos custos, ciclo longo de desenvolvimento e complexidade da operação, é importante ter em mente que hardware é um bom negócio.

Movimentos como Internet of Things, werables e impressoras 3D impulsionam a inovação sobre uma nova ótica, onde o hardware e software se combinam e uma experiência única, na expectativa de que o ecossistema entenda as novas necessidades e abrace a inovação.

Talvez seja este um sinal de uma nova era onde teremos mais espaço para inovação de verdade, hardware ou não. Por fim, pense duas vezes antes de incluir no seu pitch a frase “vamos revolucionar a maneira com que…”. Seu negócio é disruptivo de verdade?