O Que É Troca de Tráfego IP, e Porquê Você Deve Se Importar

Fato: a banda Internet no Brasil é cara, e impacta todos os negócios de Internet, como acesso banda larga e hospedagem de serviços.

Em 1995, quando a Internet comercial chegou no Brasil, um link de 2 Mbps custava R$ 22.000,00.  O preço abusivo limitou muito o que poderia ser feito com Internet. Hospedar um servidor fica muito mais caro quando a banda custa tanto assim. E até hoje, muita gente acha melhor hospedar os servidores lá fora (em serviços como Rackspace, Amazon e Dreamhost) do que no Brasil. O preço local de banda já caiu muito, mas ainda custa para os provedores algo na faixa de R$ 250,00 a R$ 500,00 por Mbps. É uma redução de 20x em 15 anos, mas ainda é muito mais do que custa lá fora. Somente grandes empresas conseguem um custo menor do que esse. E a raiz do problema está no modelo da Internet brasileira, e em uma distorção que somente agora começa a ser corrigida.

O Oligopólio da Banda Internet no Brasil

A Internet no Brasil chegou pouco antes da privatização, em um momento em que o mercado ainda era controlado pelas empresas estatais. Inicialmente, a única empresa que podia oferecer acesso Internet era a Embratel. Todos os provedores compravam o link da Embratel e tinham que pagar preços abusivos, de mais de R$ 10.000,00 por Mbps contratado. O provedor tinha que fazer essa banda render e para isso concentrava até 20 clientes para cada bit disponível. O resultado: preços altos, linhas lentas, serviço ruim.

Ao longo dos anos seguintes pouca coisa mudou. Outras operadoras entraram no mercado, mas tinham que conviver com o monopólio da Embratel. Mas algumas dessas empresas tinham porte e poder de barganha para forçar as negociações, e aos poucos o monopólio foi se transformando em um oligopólio. Empresas como Oi e Telefônica são exemplos desse processo, pois adotam basicamente as mesmas políticas que a Embratel sempre adotou: preços altos, banda reduzida, política inflexível.

A Solução: Troca de Tráfego

A situação é ainda mais estranha se você considerar o que acontece quando duas pessoas, vizinhas na mesma cidade, precisam conversar entre si pela Internet. Suponha que você tem um acesso banda larga da Net, e que seu vizinho possui um link de rádio com um provedor local. Na Internet brasileira dos anos 1990 e 2000, o caminho exigia quase sempre a passagem por dentro de um provedor maior (geralmente a Embratel, mas poderia ser a Oi ou um outro qualquer).

Veja os custos envolvidos. O seu provedor tem que contratar capacidade do terceiro para chegar na Net, que também tem que contratar um terceiro. Ou seja – os dois tem que pagar para um mesmo intermediário. Se este intermediário recebe R$ 400,00 por Mbps (um preço razoável no mercado atual), ganha duas vezes este valor – R$ 800,00 – apenas para ligar dois vizinhos. Neste caso, não seria melhor se a Net e o provedor local falassem entre si diretamente? Os dois economizariam conexão de backbone, a latência diminuiria, a performance seria mais alta, e o custo total da Internet do Brasil iria cair também.

Esta idéia – ligação direta entre provedores, operadoras e backbones – existe, e é adotada no mundo inteiro. Chama-se “Troca de Tráfego Internet”, ou “Peering”, e é um dos segredos mais bem guardados pelas grandes operadoras no Brasil.

Nos EUA, o modelo de troca de tráfego surgiu junto com a Internet comercial. O primeiro backbone americano surgiu com a formação de 4 centros de troca de tráfego (em inglês, NAP, ou Network Access Point). Nesses centro as operadoras e provedores se interligavam para trocar tráfego diretamente. Quem não estava no NAP ou não tinha tráfego suficiente precisava comprar banda dos outros. E foi o que a Embratel fez – se ligou a um NAP nos EUA e trouxe a banda para o Brasil, para vender a peso de ouro. Só que chegando aqui, ela assumiu o monopólio e nunca abriu para nenhum outro backbone local o mesmo benefício do sistema americano.

Quem Ganha Com A Troca de Tráfego

Para quem é desenvolvedor ou mesmo usuário, pode parecer que um tema como esse é de interesse somente das operadoras ou dos engenheiros de rede. Mas isso é um engano. Se o Brasil tivesse uma prática mais forte de troca de tráfego, respaldada por investimentos públicos e privados, e por regras mais claras por parte da Anatel, é provável que o custo da banda já estivesse muito menor hoje em dia. Isso teria benefícios não só para os usuários residenciais, mas também para os empreendedores da Web, que poderiam hospedar seus serviços no Brasil a preços muito mais competitivos.

Quando um desenvolvedor brasileiro hospeda seus serviços no exterior, ele pode até pagar mais barato, mas cria um problema de performance. Cada acesso ao site tem que sair do Brasil e ir para o exterior por um link, que “custa” centenas de milisegundos preciosos, somando a ida e a volta. Um link local teria latência muito mais baixa e poderia operar com taxas mais altas. Serviços que demandam muita banda, como vídeo e backups de arquivos, precisam desse tipo de estrutura local.

A Situação da Troca de Tráfego no Brasil, Hoje

Existem projetos de troca de tráfego no Brasil desde a década de 1990. Provedores locais tentaram atuar através dos canais competentes (Comitê Gestor da Internet BR e Anatel, por exemplo) para implantar um sistema de troca de tráfego no Brasil. Algumas empresas foram pioneiras no processo, como foi o caso da CTBC, que começou a implementar peering em 2001. Aos poucos o consenso sobre a necessidade do peering foi aumentando, mas não houve nenhuma interferência que pudesse quebrar o oligopólio das grandes operadoras.

Somente no final dos anos 2000 é que o processo se acelerou. O NIC.br, órgão que gerencia o domínio do Brasil (.br) criou um projeto de PTTs, ou “Pontos de Troca de Tráfego”, em cidades com concentração de tráfego Internet. O projeto PTT Metro já atende 12 cidades, incluindo as principais capitais, mas a adesão aos PTTs ainda é incipiente em várias delas. Em São Paulo, porém, o PTT já tem um tráfego agregado de 30 Gbps. Mesmo considerando um preço altamente descontado de R$ 100,00 por Mbps, isto significa uma economia mensal de 3 milhões de reais em banda – e isso tudo só em SP.

Com a consolidação do PTT em SP, o próximo passo é viabilizar a troca de tráfego em outras capitais. Algumas delas, como Porto Alegre e Curitiba, já tem um volume razoável de tráfego. Em outras cidades, como Belo Horizonte, o projeto ainda não decolou. Porém novas conexões já estão sendo feitas, e prometem ajudar a alavancar o PTT destas cidades, o que certamente irá trazer benefícios tanto para os internautas, como para os empreendedores da Web brasileira.

Observação: o autor do artigo (Carlos Ribeiro) é colunista do RWW BR, mas também é engenheiro de redes, tendo trabalhado em 2001 na implementação dos primeiros projetos de peering da CTBC. Atualmente, é o responsável técnico pela operação de redes da Telbrax, operadora de Belo Horizonte que está se interligando ao PTT Metro BH.

14 responses to “O Que É Troca de Tráfego IP, e Porquê Você Deve Se Importar

  1. Um dos problemas é o “um peso e duas medidas” da agência dita reguladora quanto ao serviço IP. Enquanto na justiça já se determinou em sumula que IP é serviço de valor adicionado, a Anatel insiste e requer licença de dados (SCM) operando em regime privado para prestar o serviço.

    Mas não regula a interconexão Classe III (desde 2001!!!) nem determina as condições da interconexão Classe V entre as STFC que detém SCM e as SCM “independentes”. Conclusão: as SCM das STFC obtém vantagens indevidas, anti-isonômicas frente as outras, o que se traduz em preços mais altos para todos.

  2. Um dos problemas é o “um peso e duas medidas” da agência dita reguladora quanto ao serviço IP. Enquanto na justiça já se determinou em sumula que IP é serviço de valor adicionado, a Anatel insiste e requer licença de dados (SCM) operando em regime privado para prestar o serviço.

    Mas não regula a interconexão Classe III (desde 2001!!!) nem determina as condições da interconexão Classe V entre as STFC que detém SCM e as SCM “independentes”. Conclusão: as SCM das STFC obtém vantagens indevidas, anti-isonômicas frente as outras, o que se traduz em preços mais altos para todos.

  3. Bom dia, muito bom o artigo.
    Aproveito para incluir uma informação. Uma empresa privada, em breve fará a interligação de todos os PTT’s do Brasil. Aguarde. Vai ter operadora chorando de raiva, mas vai sair. Aos poucos esse oligopólio vai ser quebrado, se Deus quiser.

  4. Bom dia, muito bom o artigo.
    Aproveito para incluir uma informação. Uma empresa privada, em breve fará a interligação de todos os PTT’s do Brasil. Aguarde. Vai ter operadora chorando de raiva, mas vai sair. Aos poucos esse oligopólio vai ser quebrado, se Deus quiser.

  5. @Ederson,

    Se entendi bem sua informação a notícia é quente mesmo. Mesmo assim, o próprio processo natural de amadurecimento das operadoras SCM de pequeno porte já está fazendo com que isso aconteça. O processo é lento mas está acontecendo a passo seguro.

    @Bruno Cabral,

    A agência tem vários instrumentos para interferir neste processo mas opta por não usar nenhum deles. Mas eu não generalizaria tanto porque mesmo entre as STFC, a postura é muito diferente. Empresas como a CTBC (na qual eu trabalhei) participam de PTTs, enquanto outras preferem nem falar do assunto. A questão é de política comercial, com certeza.

  6. @Ederson,

    Se entendi bem sua informação a notícia é quente mesmo. Mesmo assim, o próprio processo natural de amadurecimento das operadoras SCM de pequeno porte já está fazendo com que isso aconteça. O processo é lento mas está acontecendo a passo seguro.

    @Bruno Cabral,

    A agência tem vários instrumentos para interferir neste processo mas opta por não usar nenhum deles. Mas eu não generalizaria tanto porque mesmo entre as STFC, a postura é muito diferente. Empresas como a CTBC (na qual eu trabalhei) participam de PTTs, enquanto outras preferem nem falar do assunto. A questão é de política comercial, com certeza.

  7. Sei de um grupo privado que está vindo para o Brasil para entrar em forte disputa com as operadoras, o grupo concerteza irá se destacar, recentemente alcançaram testes de 100gbps simétricos em uma nova tecnologia, la fora eles oferecem ao mercado 500mbps simétricos com IP fixo por apenas 150 reais (média), projeto foi tão bem visto, que decidiram migrar seu projeto para o Brasil e entrar em disputa com provedores que oferecem 1 mbps por 155 reais (exemplo de cotação de link dedicado em campinas), espero que provedores como a OI estejam preparados, esses provedores com fios degradados na região norte, onde se aguenta no máximo 1.5mbps, seus backbone com conexões óptica de no máximo 10gbps, se em vídeos no youtube estão achando que conseguem competir com a PNBL, imagina quando esse grupo que alcançou 100gbps simétricos chegar ao Brasil, quero ver qual provedor terá tecnologia implantada em sua estrutura para competir com essa quantidade de tráfego.

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